<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-28052690</id><updated>2011-09-04T16:14:03.208-07:00</updated><title type='text'>Tu não existes!!!</title><subtitle type='html'>de Nuno Marujo

"Tu não existes!" é o meu segundo romance original. Proponho-me à experiência de o revelar, com grado, aqui.
A contrapartida pelo acesso gratuito a esta leitura são rogos que, como autor, faço nos link's ao lado do texto.
Contribua pois, tal como o texto, não custa nada.
Obrigado!
*direitos sobre a obra reservados no IGAC - respeite os originais</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28052690/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>nuno marujo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02934681415275827371</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28052690.post-114755255072475298</id><published>2006-05-13T13:19:00.000-07:00</published><updated>2006-05-13T13:35:50.733-07:00</updated><title type='text'>breve nota do autor,</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ao publicar neste blog, o livro &lt;span style="font-size:130%;color:#990000;"&gt;"Tu não existes"&lt;/span&gt; pretendo que, antes de mais, o máximo de pessoas possam compartilhar esta história veridica que, relato envolta cautelosamente em ficção e distituindo os nomes reais de pessoas e locais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em segundo lugar desejo dar a conhecer a minha escrita de forma a que, se possível, possa criar um nome conhecido entre os autores literários portugueses.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dadas as fronteiras editoriais que existem em Portugal o método mais lhano de concretizar o meu desejo é expor neste espaço... que honra a minha vontade por ser acessível a quem se interessar. E, a quem manifeste esse interesse, desejo profundamente que obtenha um bom proveito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Agradeço qualquer comentário&lt;/strong&gt; sobre qualquer aspecto relacionado ao livro directa ou indirectamente. Nomeadamente quando identifiquem - e desde já peço desculpas pelas; - lacunas. A obra ainda se encontra em correcção, qualquer contributo será uma observância levada em conta. Prometo responder a todos que colaborarem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Fica &lt;/strong&gt;assim &lt;strong&gt;entregue a minha&lt;/strong&gt; modesta [mas &lt;strong&gt;imensa&lt;/strong&gt;] &lt;strong&gt;gratidão &lt;/strong&gt;aos que visitarem a página e, em particular, aos que a derem a conhecer a terceiros (quer por links, mesagens, etc).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nuno Marujo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28052690-114755255072475298?l=tunaoexistes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/feeds/114755255072475298/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28052690&amp;postID=114755255072475298' title='10 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28052690/posts/default/114755255072475298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28052690/posts/default/114755255072475298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/2006/05/breve-nota-do-autor.html' title='breve nota do autor,'/><author><name>nuno marujo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02934681415275827371</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-28052690.post-115323456940310445</id><published>2006-05-01T01:00:00.000-07:00</published><updated>2006-07-18T07:56:09.530-07:00</updated><title type='text'>Tu não existes!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Rompeu o sol na madrugada húmida e gelada. Começou um novo dia. O aroma das flores perfumadas, lírios, rosas, malmequeres e tulipas dissolveu lentamente o cheiro do sal, das algas, do mar que impregnara o ar da noite. O ruído constante do movimento das ondas a galgarem o extenso areal despertou-o para a desconfortável realidade do sono passado ao relento. Acordou a cuspir areia, que decerto alguma já engolira. O mundo em movimento. O horizonte de linha recta contorcia-se na mesma irregularidade do mundo em seu redor. A constância das formas foi aclarada pelo costume à ressaca. Debilmente colocou-se de pé e em desequilíbrio rumou à casa à sua frente. Necessitava de ingerir líquidos, a sua boca estava seca. A sua língua áspera necessitava de algo adocicado. O hálito putrefacto só morreria depois de o seu estômago receber o alimento que tanto reclamava. Havia garrafas vazias e muitas peças de roupa entre os infindáveis despejos em volta da piscina. As cadeiras estavam deitadas no chão e as que não, estavam dentro de água. Flutuavam garrafas vazias, copos de plástico, peças de roupa e uma casota de cão. Mas no fundo da piscina reconheceu cadeiras e mesas de jardim, sapatos, garrafas e mais garrafas, um relógio de parede, uma bicicleta e até um sofá. “Porra! Quem deitou para a piscina o sofá?! Porra!”. Mas a consternação assomou-se à sanha, apenas contida pela fraqueza, quando viu um objecto de valor pessoal quebrado em partes, a flutuar nas cáusticas águas. “O cofre do tempo, não! Merda… Filhos da puta!”. Ficou de tal forma desorientado que entrou em casa pela porta da sala sem reparar que uma das portas de vidro estava quebrada. Dirigiu-se à cozinha ignorando o holocausto completo por onde passava. O candeeiro estava suspenso pelos fios eléctricos, o chão cheio de lixo, o quadro de óleo pendurado na parede do corredor estava redesenhado com bigodes sobre a imagem da airosa mulher que dantes continha, um colchão estendia-se pelas escadas que davam ao primeiro piso. A todos os passos os pés se colavam ao chão engordurado pela bebida evolada. Abriu o frigorifico forçando a porta a desviar a carne descongelada à sua frente. Pegou no pacote de leite, estava vazio. A água cheirava a álcool, o sumo também. Tudo cheirava a álcool, aliás toda a casa. Não fosse a bebedeira que o deixou nesse estado saberia o que beber apenas pelo odor. Pegou na garrafa de sumo para molhar os lábios, era urina de certeza. “Ninguém faria isso!” – Disse-o a si mesmo. Mas relembrou o sofá na piscina e decidiu desistir do sumo. Entornou-o pelo chão sem sentir o mínimo pesar pelo insignificante agravamento do caótico estado da casa. Regressou ao corredor que dava acesso ao piso dos quartos, só aí reparou no colchão e perguntou-se o que ele fazia ali se a porta do piso superior fora trancada à chave na noite anterior. Correu as escadas até ao cimo e deparou-se com a ausência dessa, arrancada pelos aros da carpintaria. Não podia ser pior, nem os quartos escaparam à violência da festividade. Abriu o primeiro quarto. O guarda-fatos estava no chão e a roupa deveria ser a que ele viu estendida pelo exterior da casa. O segundo quarto não tinha cama – pelo menos sabia onde se encontrava o colchão. Estremeceu a imaginar o estado do terceiro quarto, a suite. Repleta por cristais finos, cedas e antigas porcelanas da china. Abriu de rajada a porta e nem conseguiu assimilar que tudo estava normal. Acendeu a luz para ver melhor. E ergueram-se na cama a sua pseudo-namorada e o liliputiano do seu amigo. Ambos nus. Nem cobriram o corpo perante a sua aparição.&lt;br /&gt;– Sandrina!!? – Exaltou amarguradamente.&lt;br /&gt;– Apaga a puta da luz! – Respondeu o canalha que se encontrava na cama.&lt;br /&gt;Então, pegou num jarro para o partir em cima da cabeça do tipo estendido na cama. Nem a permanência do álcool nas suas veias explica como ele conseguiu tropeçar antes de o fazer e como caiu no chão fazendo o jarro de porcelana lhe abrir a cabeça e o deixar inconsciente.&lt;br /&gt;Acordou com o sabor de sangue na boca. Meteu a mão à cabeça e sentiu o cabelo aglutinado pelo coagulado sanguíneo que escorreu quase sem parar. Na porta do quarto de banho apareceram Sandrina e o traiçoeiro amigo, beijaram-se ferozmente e saíram sem lhe darem a mínima das atenções. Exclamou do chão: “Sandrina!? Porquê?”. Ela olhou para trás e não respondeu, foi-se embora simplesmente. A custo ergueu-se e espreitou na janela ambos montarem a CBR 1000 e desaparecerem num estrondoso “BRRRRUMM”.&lt;br /&gt;Do outro lado da colina onde se situava a casa onde se encontrava, conseguiam-se distinguir os seus gritos de raiva entremeados com as suplicias berrantes de dor.&lt;br /&gt;Durante uma fiada de tempo que não parecia ter ponta terminal, quebrou os materiais que haviam permanecido a salvo da noitada, num pranto tão ruidoso que só seria comparável com a trovoada crepitante dos contos esotéricos da Transilvania. Começou no quarto, atravessou todo o andar superior e desceu ao rés-do-chão desfazendo a cólera de si mesmo nos objectos que se transformavam em migalhas à medida que lhes tocava. Lançava-se sobre as paredes, amofinando a dor sentida no escorrer das perturbações lacrimejantes e mutilava-se desta forma, não tanto com o dano físico mas pelo perecível ânimo anímico.&lt;br /&gt;Entrou na sala arrastando os pés entre a imundície preada ao soalho de madeira maciça envernizada, truncado da sua consciência, baqueou contra o divã. Da memória inerte tentou desesperadamente recordar os acontecimentos que orientaram o tumulto da festa. Não se lembrava sequer do seu próprio nome. Não conseguiu tão-pouco lembrar-se de ter planeado alguma festa. Os últimos momentos de frugalidade de que se recordava remontavam-no para a sua adolescência, no dia 13 de Janeiro de há 13 anos atrás. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;I&lt;br /&gt;Pretérito&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia enquanto brincava com os amigos no pátio da casa da Dona Esmeralda, a velhota amiga da sua avó que ao lanche sempre lhes oferecia biscoitos de chocolate e avelãs, fora interrompido por a Madalena, a sua avó, que o levou para uma sala onde se encontrava gente de ares estranhos e lânguidos, para onde o trataram pela primeira vez como se já fosse um homem crescido. “Houve um acidente... Os teus pais morreram.”. Custeada pela tenra idade, toda a realidade pareceu fictícia e a dimensão amodorrada dos sentimentos agravou com a ensurdecedora contenda dos adultos. Por momentos ignoraram o miúdo, envoltos que estavam num babel crescente, esqueceram-se que a parte delicada não era a forma com lhe haviam transmitido a noticia, se deveria ter sido contada a verdade ou a mentira, mas somente o estado da criança. Quando o recordaram, já havia desaparecido. Fugiu de volta para o pátio onde antes estava a brincar, como que se pudesse enganar o conhecimento enganaria a realidade também. Mas os outros meninos em consciência do desastre não souberam reagir à perplexidade do acontecimento e não brincaram com o órfão, ficaram a olhá-lo com hesitantes ares molestos. Ao se aprestarem do desejo que brota sobre as cinzas do que se perde correram a gritar pelos próprios pais e deixaram-no sozinho.&lt;br /&gt;Treze meses antes desse dia, eram vésperas de Natal. Uma jovem na casa dos trinta, de pele macia e esbelta como uma miúda, e com a doce ternura de uma avó, estava sentada ao seu lado, no chão, frente a um gigantesco pinheiro iluminado por inumeráveis pontos de luzes cintilantes. A deslumbrante árvore pleiteava a atenção do menino com o presépio, as fitas reflectoras penduradas de parede a parede, os bonecos de chocolate espalhados pela sala, a neve artificial que cobria o parapeito interior da janela, as toalhas de mesa e as cortinas tematicamente análogas, as velas tremeluzentes e todas as restantes decorações que davam um enquadramento natalício à esfera familiar.&lt;br /&gt;– Mamã, quando vem o pai natal? – Denunciava a ânsia pelos presentes. Sem saber que um deles continha um relógio de ouro com o seu nome completo cravado nas costas, ao qual nessa idade não daria importância mas que, um dia lhe ia transformar a vida por completo.&lt;br /&gt;– Ainda tens que abrir mais 13 destas portinhas antes que o pai natal apareça para te dar o teu presente. Uma por dia. – Apontava a sua mãe para a pequena caixa de madeira, que continha os dias do mês até à data de nascimento do menino Jesus, trabalhada com a precisão de artesão do seu pai. Carpinteiro por profissão e de capacidade inata, fez a caixinha das surpresas com o dobro do cuidado com que se dedicava a fazer as caixas de correio que coleccionava, e entregou embrulhada numa espécie de estopa de lã à sua única filha no primeiro dia de Dezembro, o seu aniversário.&lt;br /&gt;– Este é o cofre do tempo, há medida que os dias passam, descobrirás na abertura de cada porta um motivo para desejares o dia seguinte. – Disse-lhe o seu pai com a carinhosa voz rouca sufocada pela asma que lhe haveria de abafar a vida ainda antes do ano novo. Anos mais tarde haveria de ser dela a vez de usar o cofre do tempo para estimular o entusiasmo do seu filho pela comemoração cristã e pela convicção que o dia seguinte traria sempre algo de bom. Para sempre subsistiria no carácter dela essa força para ultrapassar cada obstáculo da vida e aguardar numa motivação esperançosa os brindes que o dia seguinte designaria. Contudo muitas foram as vezes que teve que suturar o impetuoso destino que a fez adregar no homem que a má sorte tornaria seu marido. Francisco Boença de Malarte era um jovem cheio de intenções moralizadoras quando Sofia Bernardete Castanheiro o conheceu. Não fora amor imediato que despontou por Francisco, mas a pacóvia singeleza da rapariga, nascida num meio rural pobre, deixou-a sofismar pelos furtivos ideais e pela promissora capacidade dele constituir um bom partido. Nos ermos momentos que Sofia atravessou, desde o egresso do seu pai, sempre Francisco Boença de Malarte apareceu. E a sua presença constante acabou por lograr a sua pertinácia com o avezamento. Uma noite, o sagaz sentido de Francisco tirou proveito deste à-vontade entre eles e abraçou a oportunidade quando Sofia Bernardete Castanheiro careceu de afecto íntimo. Casaram cinco meses depois de ele a desvirginar na cama do quarto adjacente onde dormia Madalena Bernardete Castanheiro, mãe de Sofia. Casaram com a mesma veemência com que a alma cegou os seus actos incautos nessa noite para abafar a possível injúria pública e corrigir a desonra do parto antecipado à jura cristã de eterna fidelidade. Para Sofia a retoma da felicidade que perdera desde a morte do seu pai teve breve duração pois, as aparências enganosas mantiveram-se somente até se consumar o casamento. Ele doutorara-se em medicina e tal como objectivara quando conheceu Sofia transformou-se num médico de bom-nome, conhecido pela simpatia exagerada e a prontidão para ajudar o próximo. Foi um pai esmerado e devoto à condição de educar o filho pelos princípios morais e éticos com que se regia. Mas a dita de Sofia ia-se decompondo à medida que os anos passavam e os sentimentos não lhe devolviam a felicidade que procurava. Em todos os aspectos o seu marido satisfazia o desejo de qualquer mulher mas, na verdade, era um júbilo demasiadamente superficial para impedir que a maior força motriz do Ser pudesse apodrecer sem plenamente ter sido considerada amor. Ela sabia-o. Sabia que só no amor poderia residir o puro contentamento. Para Francisco Boença de Malarte a realização total provinha da concretização profissional, de fazer vigorar a imagem social de que possuía uma família feliz, de plantar uma árvore, escrever um livro e gerar um filho. O amor fecundar-se-ia a ele próprio com o devido tempo. Entretanto complementou a falta sentida no seu lar em adultérios cada vez mais ordinários. Sofia Bernardete Castanheiro estava cada vez mais convicta dos subterfúgios do marido, dos enganos bem fundados e álibis que ele engendrava para iludir o que o seu sexto sentido feminino receptara há muito. Fez-se surda às mensagens da própria alma para perjurar grado pela sujeição. Prometera envelhecer ao seu lado, respeitá-lo e amá-lo até ao fim dos seus dias, mas no fundo cada vez mais preferiria falhar à palavra dada no altar do que morrer sem conhecer todas as razões da existência. Talvez por querer salvar Sofia de outra mácula na sua vida destinada à santificação, Deus concedeu-lhe o prematuro termo à vida.&lt;br /&gt;Nos últimos anos Sofia consentiu que o marido passasse as noites de Natal ausente da família porque não conseguia refutar a existência dos colóquios, convenções e reuniões a que Francisco teria irrevogavelmente que comparecer. O mundo de intrujice em que Francisco vivia estava tão esquematicamente bem elaborado que ele próprio poderia se deixar confundir entre a ficção e a realidade e enganar o mais sofisticado detector de mentiras. No dia 26 de Dezembro regressou a casa pela manha, colocou os presentes para o seu filho junto à lareira e foi despertar a sua esposa à cama para lhe oferecer um colar de pérolas negras envoltas em fio de ouro branco. Quando a encontrou apercebeu-se que ela estava inconsciente por ingestão abusiva de fármacos. Essa excessividade foi minorada por Francisco julgando que se tratava de uma chamada de atenção mas, na verdade fora a primeira honesta tentativa de suicídio. No ano seguinte, Sofia tentou por outras duas vezes apartar a dor do modo mais cobarde. E despendeu esforço supérfluo para que o seu marido passasse o natal seguinte em casa. Ele concordou e realmente pretendia cumprir talvez a primeira atitude para corrigir a sua conduta. Mas no dia de natal as suas ideologias tomaram a opção por ele e atendeu a uma urgência hospitalar para salvar uma criança que sofrera um acidente quase mortal. Demasiado aveza às mentiras, Sofia não acreditou nesse acto heróico, de factos – mais uma vez – perfeitamente comprováveis.&lt;br /&gt;O casamento deles era um charco lamacento, cuja persistente incapacidade de separar os elementos sufocava ainda mais o elo da sua existência, o filho. Poderia vida se desenvolver de forma benigna, numa relação análoga a um lago de água límpida. Mas Francisco o elemento terra, tinha os princípios sólidos como uma rocha, e por própria índole decompunha-se de forma pulverulenta para espargir a sua estirpe. A sua maneira granulosa de ser, difundia-se no elemento água, Sofia, cuja criação a destinara à pureza e limpidez. Fluía nela a instabilidade de uma relação que se deixava fugidia. A complacência parecia impossível. Mas, ainda assim, ambos se esforçaram na tentativa de recuperar o equilíbrio conjugal, em prol do descendente. Abalaram na passagem de ano, para quinze dias de retiro dedicado a transpor as adversidades e ultrapassarem a situação precária a que expunham o filho. A verdade é que o filho deles já se adaptara à convivência escabrosa dos seus pais vivendo uma realidade decomposta das atormentações. Apartava-se então num mundo onde a sensibilidade análgica tomava contornos de fantasia desnatural.&lt;br /&gt;Os acenos deste orbe imaginário eram tidos, por quem seguia a sua educação, como próprios da sua idade, embora os professores concordassem que era uma virtuosidade algo encarecida.&lt;br /&gt;Um dia colocou toda a escola de sobressalto quando entrou na sala de aulas com a roupa toda ensanguentada e um golpe que quase lhe dava a volta ao pescoço. Suplicava ajuda e entre gemidos que silenciaram o desespero de todos explicou que um homem entrara no recinto escolar e começara a esquartejar quem encontrasse. Provocou o pânico geral. Ninguém sabia o que fazer e ninguém conseguia manter alguma calma para controlar a situação. Foi a desordem global na turma de crianças em desespero a chorar, a gritar e a elevar o medo impossível de dissimular mesmo para o professor que não conseguiu se dividir entre os cuidados com a vítima e o descontrolo da turma que escapulia da sala para alastrar o terror ao resto da escola. Chegaram as ambulâncias e com ela os primeiros grupos de reportagem. Logo de seguida a policia. Fecharam a escola e num lápice foi cercada pela força de intervenção. Lá dentro estava instaurado o terror infundado, toda a gente corria em todas as direcções sem saber exactamente para onde fugia, nem de quem o faziam. Contudo num meio onde a maioria dos seres são crianças, naturalmente férteis em imaginação, corroborava-se a história da existência de um homicida de massas. A fértil criatividade dos alunos incrementava detalhes e visões testemunhais tão numerosas que os adultos julgavam reais. Os ânimos só serenaram quando o procurado criminoso apareceu na mão do menino incitador daquela desordem. Demorou bastante tempo para que todos acalmassem e se consciencializassem que tudo não passara de uma zombaria fraudulenta. Afinal o dito assassino era um boneco de plástico, o dito sangue apenas polpa de tomate e o golpe fora simulado com recurso a uma fantasia de Carnaval. Dispararam debates em toda a imprensa sobre a educação, a segurança nas escolas e os sistemas existentes para situações limites de pânico. Comprovou-se que nenhum plano de segurança existente estava calculado para sinistros imprevistos. Ninguém acabou punido e no final o resultado foi mais uma promessa das autoridades civis de reformar os projectos de prevenção para situações de ameaças extraordinárias e de se elaborar novos sistemas para o controlo do pânico.&lt;br /&gt;Francisco Boença de Malarte ficou aterrorizado com o alvoroço social que negrejava o seu estatuto e no qual poderia patentear alguma fractura na sua impoluta imagem familiar. O seu filho só não chegou a ter a devida punição, de ficar interdito de ver televisão e frequentar as aulas de expressão artística que o tanto gostava, porque a mãe interveio a tempo incriminando a génese pelo aleijão da falsidade.&lt;br /&gt;No dia 31 de Dezembro, quando Francisco e Sofia partiram para as férias a sós, já este incidente havia sido esquecido. O filho ficou ao encargo de Madalena Bernardete Castanheiro, a avó materna. Seria ela que após a morte dos pais cuidaria da criança até falecer com Alzheimer sete anos mais tarde.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;br /&gt;Um amor para a vida&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Os últimos anos de vida de Madalena foram vividos sobre os tormentos da degeneração. Com a doença a intrincar progressivamente as memórias de toda uma vida, inferia a agonia do dia que não pudesse ser auto-suficiente e que deixaria de poder assumir a diligência da educação do neto. Contrataram uma enfermeira, a tempo inteiro, para prestar os cuidados a Madalena logo após os primeiros indícios de estar a perder as qualidades primitivas.&lt;br /&gt;O seu nome, Elsa Soares. Uma jovem de 25 anos que se licenciara recentemente na escola de enfermagem da pequena cidade de Glowsea. Viera de longe formar-se naquele lugar por ironia do destino que não permitiu colocação na universidade mais próxima da sua terra natal. A meio milhar de quilómetros de casa acabou por arranjar um trabalho de fins-de-semana ainda durante a altura que estudava. Foi constituindo a sua vida em Glowsea, à medida que preenchia com utilidades o apartamento que arrendara. A custo suportava a renda e por vezes retardava o pagamento até que o senhorio lhe batia à porta reclamando o devido. Após certo mês Elsa ter recusado a indecorosa alternativa para pagar a renda, o senhorio começou a executar a lei relativamente aos pagamentos que excediam a primeira semana do mês, exigindo penalizações de 50 por cento do valor em divida. Quando Elsa terminou a formatura já acumulara a crédito valores que levariam anos a saldar. A proposta publicada no jornal local para cuidar da idosa Madalena Castanheiro foi uma bênção para estabilizar a sua condição financeira. Ofereciam muito mais do que uma enfermeira recém formada poderia ganhar a trabalhar para o estado. E imediatamente após começar as suas funções, ainda teve a mais-valia de poder habitar na residência onde trabalhava, sem custo algum.&lt;br /&gt;Todas as despesas da hospedagem fornecida a Elsa tinham um valor insignificante comparativamente à amabilidade que ela dispunha na atenção à paciente. Foi uma neta adoptada. Contudo nos dois anos em que Elsa viveu com ela o seu estado não lhe permitiu reconhecer a pessoa cujos préstimos em muito atenuaram a sua débil congeminência.&lt;br /&gt;Fazia um ano que Elsa trabalhava na casa ocupada por Madalena após a morte de Sofia e Francisco Malarte, quando o herdeiro daquele pequeno património perfez 19 anos. Tratava-o pelo apelido apesar de o considerar o irmão mais novo que nunca tivera. O jovem Malarte transpusera a puberdade numa clausura interior que não abria para ninguém, muito porque, lhe parecia que as pessoas o queriam abandonar no ermo local onde se refugiava com o seu pensamento consolador. Todos lhe pareciam conspirar uma urdidura para o deixar só, incompreendido e a cada revés mais dependente de um mundo imaginariamente próspero e solitário. Tornara-se um neófito na maturidade sem ter tido alguma proeza natural da adolescência. Apaixonara-se por duas vezes mas a falta de confiança não permitiu que quebrasse o desprezo que as miúdas, à semelhança dos seus colegas, lhe davam. E assim originou uma personalidade aferrolhada bastante mais interiorizada da que possuem os comuns introvertidos. Este isolamento promovia provocações por parte de alguns néscios que, sendo inseguros, pretendiam a aceitação dos colegas na base do desvio das rejeições sociais. As incitações verbais eram infrutíferas, dado o alheamento dele, de modo que, algumas vezes, resultavam em desafios físicos. Tomaram-no por fraco pelo facto de nunca recalcitrar. E um dia quiseram em grupo zurzir nele as frustrações de cada um. Correu em fuga por meio das chacotas dos que tentavam pear a salvação e dos que observavam coniventes pela inércia. Saltou por cima de uma moita que lhe aprendeu a mochila e lhe fez espalhar os cadernos pelo chão de relva encharcada. Hesitou em deixar para trás o espólio das suas criações fictícias que acumulava como um tesouro e recuou para recuperar alguns cadernos. Então reparou num rapaz que se debatia para impedir que os perseguidores continuassem o acosso. As hostilidades viraram-se contra esse rapaz e o jovem Malarte pôde escapar. Nunca esqueceu o seu rosto ou o gesto que lhe devolveu o anonimato acautelado. Para evitar a continuidade das complicações era sempre o último a entrar na sala de aulas e refugiava-se na casa de banho até ao toque de entrada. Um dia ao sair da latrina encontrou o tal rapaz e agradeceu-lhe. “Tens que lhes fazer frente.” Aconselhou o rapaz. “Não quero problemas, só isso. Obrigado por tudo.” Respondeu-lhe resignado. “Não tens de quê… sempre que precisares... chamo-me Ângelo Salvador”. Reteve na memória o nome desse rapaz que, por justaposição, fixaria pela sonância semelhante a anjo salvador.&lt;br /&gt;As únicas pessoas que nos seus relacionamentos eram dignas da venera da amizade foram, esse rapaz, Ângelo Salvador que, não voltou a encontrar e, a enfermeira Elsa Soares, que apareceu oportunamente para lhe proporcionar momentos de alegria que não recordava ter. Com ela ria das contrariedades da vida como se fossem as razões da existência do humor. Disparatavam em sarcasmo nas falhas de memória de Madalena e nos enganos que estas por vezes produziam. Pareciam crianças a abstrair piada da avó colocar a lenha no forno eléctrico, de guardar o casaco no frigorifico e ao comparem-na com um batedor eléctrico sempre que tentava comer sozinha. Ironia mordaz que nada tinha a ver com o afecto que lhe tinham. Pois ambos a estimavam como se fosse uma antiqua peça delicada de valor inestimável. E ambos sabiam que a longevidade de Madalena salvaguardava a continuidade daquela relação tão benéfica aos dois, embora nunca ousassem falar sobre o dia em que ela falecesse.&lt;br /&gt;Malarte costumava ir ao quarto de Elsa para se deitar ao seu lado na cama. Envolviam-se em entretenimentos de pura alvura e o favorito eram os jogos de cartas. A lhaneza das intenções permitia uma aproximação íntima entre os dois, quase tão privada como a de marido e mulher. Elsa tinha um natural bojo sedutor, inocentemente agravador da produção de testosterona no jovem adulto. De sorrelfa, Malarte contemplava a suave pele das suas pernas e as ligeiras curvas que terminavam onde o leve vestido de noite começava a cobrir. Batia-se em pensamentos de culpa pelos inatos instintos que lhe faziam imaginar chegar a sítios onde a candura não permitia ir. Mas regressava todas as noites ao quarto de Elsa para vislumbrar um pouco mais. Ansiava pelas noites quentes em que ela não vestia o sutiã libertando-lhe os seios para movimentos delatores da atracção feminina. Com intenção matreira, exagerava movimentos oportunos para fazer correr o ar que, por vezes, provocava o realce dos mamilos e que Elsa, acariciava distraidamente de forma tremendamente excitante através do fino vestido que deixava entremostrar pela transparência a lingerie inferior e todo o seu corpo modelar. Na época quente era, por vezes, difícil para Malarte conseguir legitimar o uso da roupa da cama que usava para encobrir o tesão. Por isso a época fria tinha também o seu lado proveitoso, principalmente nas noites frias mais rigorosas, em que chegava a ter o abraço parental dela. Ainda assim sempre teve a capacidade de nunca ultrapassar a afilada linha entre a intimidade que Elsa lhe consentia e a insolência. Gradualmente ambos se sentiam a estreitar a relação, que nunca se diligenciou de outra forma senão da amimaria.&lt;br /&gt;Certa noite de Inverno acordaram cedo na manhã com suaves pancadas na porta. Haviam adormecido juntos e embora não fosse propriamente uma cópula, assim julgaram as empregadas da empresa de limpezas que duas vezes pela semana trabalhavam na casa. Nem ele, nem Elsa tentaram que, de modo intercalado em conversa casual, fosse explicado o que elas haviam visto, apesar da Dona Esmeralda, a matrona chefe de pessoal, abusar na intromissão alheia, pelos resmungos que durante meses fez em voz baixa sobre o decoro que se passava na casa onde habitava a sua amiga de infância, Madalena. Madalena estava incapacitada de entender o que lhe contava a amiga e na realidade quem dirigia a casa era de facto Malarte. Este ficou interiormente agradado com o facto de ser do pensamento público que ele já tinha relações adultas, embora ainda, na verdade, fosse casto.&lt;br /&gt;Certa tarde de Setembro, espertava-se o Outono com uma translúcida luz solar e um tíbio calor de fim de Verão. Caminhavam Elsa e Malarte sobre as primeiras folhas caídas, das árvores que com o seu próprio tempo se empalideciam da exuberância do veraneio e se preparavam para despojar da folhagem. O rio, agora renunciado pelas aves migratórias, espelhava o azul do céu, contracenando com o brilhantismo da paisagem encetada ao amarelecimento. Ao seu lado estendia-se um caminho de terra batida que confidenciava os segredos que Elsa e Malarte permutavam nas suas usuais caminhadas digestivas. Ela sentou-se na margem, à ilharga de um sazonado castanheiro, a contemplar as águas calmas que pareciam imobilizar a cadência da vida envolvente. Malarte, que se manteve de pé junto ao castanheiro, expunha com recato as fragilidades da sua personalidade sorumbática enquanto cravava o canivete no tronco. Acabou por contar sobre a sua condição virginal e sobre algo que nunca delatara a ninguém, o facto de nunca ter beijado alguma mulher na sua vida. Elsa ficou, por breves instantes, a olhar para ele com um ar de comiseração e para quebrar o insípido ambiente que se gerou decidiu nivelar a conversa ao desabafo dele, e contou como sofrera após ter encontrado o homem da sua vida na cama com outro homem. A história surpreendeu tanto Malarte que ele inconscientemente arremessou os seus pensamentos sem reflectir, considerando o sujeito como desassisado por “esbanjar a maior dádiva com que Deus poderia brindar alguém”. E ao concluir a frase arrancou um fatacaz de cortiça. Elsa olhou para ele retribuindo-lhe, com um probo sorriso, a alegria que o elogio lhe provocou através de um agradável calafrio que se fez sentir em toda a sua pele. Depois levantou-se e aproximou-se dele. Sobressaltado pela declaração que lhe fizera, Malarte continuou o exórdio dos sentimentos que apenas confidenciava à sua escrita e preparou-se para lhe revelar o quanto estava contente com o facto de se comentar que uma mulher como Elsa era sua namorada. Mas o anseio foi bloqueado pela proposta de Elsa, em ser ela a lhe dar o seu primeiro beijo. A confiança de Malarte abanou como uma vara verde, foi incapaz de exercer uma reacção à proposta e deixou-se ficar atónito face ao inesperado ensejo. Os seus lábios tocaram-se suavemente e despertaram Malarte para a realidade que sempre cobiçara. Do sonho à vida, do imaginário à efectividade, transpôs a teoria da destreza necessária ao mais importante de todos os beijos, o primeiro, e abriu a boca para expelir a língua exploradora. Mas Elsa parou-o repentinamente. “Assim não está bem! Não é às brutas que se obtém a voluptuosidade do beijo.” Exprimiu-lhe ela. Ele prestou atenção às palavras dela e entendeu-as na mesma língua que descrevia este acontecimento sempre que o imaginava. Num ténue movimento corporal Elsa denunciou que estava preparada para voltar a tentar e sem palavras Malarte investiu na sua direcção, e os seus lábios fundiram-se instantaneamente. Em temperatura e humidade análoga, os seus lábios unificaram-se como sempre tivessem sido um só e separados há muito tempo. O universo selou-se naquele momento e a relatividade de nada mais existir abriu uma ligeira brecha apenas suficiente para deixar penetrar lentamente o som do melodioso rio, o calor dos amenos raios de luz e do doce perfume da natureza.&lt;br /&gt;À medida que paravam o beijo, levitavam cada vez mais próximos do chão e quando se olharam nos olhos retomaram a posição térrea que a autêntica vida continha. “Um beijo deve ser sempre dado com amor.” Disse-lhe Elsa, embora não segura sobre o que acabara de sentir, porque o momento contrapôs toda a certeza que tinha sobre os sentidos humanos. Porque pensava que qualquer emoção poderia despertar sensações, apenas, até onde conhecia que os sentidos eram capazes.&lt;br /&gt;Ainda anestesiados pelo beijo, embateram face à realidade pelos gritos provindos da matrona Dona Esmeralda, que saiu a correr de casa a berrar por eles para uma urgência. O maior medo comum aos dois despertou-lhes o receio pelo que o pior pudesse acontecer e correram em socorro tardio pelo facto irreversível. Esse dia ficou marcado na sua vida para sempre, como o dia da pior comoção jamais sentida, quando deparou com o último membro familiar jaz na cama.&lt;br /&gt;A eterna saudade pronunciou-se tão fortemente que quase se sobrepôs à recordação de ter descoberto nesse mesmo dia o amor, somente pelo pueril ósculo de Elsa. Este toque real quase mágico firmou nele a certeza de que a desejaria para toda a vida. Pois, Elsa foi a primeira grande paixão de Malarte se bem que, também se possa dizer que tenha sido o único verdadeiro amor na sua vida. Mas foi sol de pouca dura, pois os dois anos que viveu com ela voaram à razão da velocidade da luz. Nem deu conta de como os dias que haveriam de vir, faziam sempre parte do passado, logo que os relembrava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;III&lt;br /&gt;A mudança&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Ainda aos dezoito anos, pela época em que Elsa chegou lá a casa, Malarte acabara o secundário e decidira não continuar com os estudos. Dono de um pé-de-meia herdado consideravelmente suficiente para viver desafogado bastante tempo ou empreender em algum investimento, perspectivava a ascensão súbita e fácil da carreira artística que desejava seguir. Sem ponta de dúvida a sua faculdade criativa era um dom, que ele estimulava numa constante ininterrupta. Quanto mais criasse mais inspirado se sentia e quanto mais inspirado estava, mais criativo era. Então vertia todo o influxo inventivo sobre o papel, invariavelmente com a mesma caneta de aparo com que o seu pai passava as receitas médicas. Era capaz de estruturar complexos e úberes enredos imaginários, mais rapidamente que a própria vontade. E tão extraordinários que eram, que se alguém os lesse diria que seria necessário viver aquelas histórias para reflectir com tanto pormenor. O seu quarto era um testemunho da sua propensão para a escrita. Estava imutavelmente repleto de papelada espalhada pelas estantes, nos baús semi-cerrados pela lotação excessiva, nas prateleiras, atulhada nas gavetas de onde desalojara a roupa, debaixo da cama em caixas de papelão para sapatos, no roupeiro e em todo tipo de locais que improvisava para utilizar como arquivadores. Todo aquele mistifório organizava-se num método inorgânico que, para ele, era tão arrumado quanto prático. Era o único local onde as empregadas de limpeza sabiam não poder aceder.&lt;br /&gt;Só Elsa penetrou nessa caixa forte com autorização. Enquanto ele tentava coadunar a atenção dada ao vício e à intrusa, Elsa aproveitava para bisbilhotar entre os acervos de papel e colocava-lhe questões desapropriadas à concentração necessária para Malarte acabar o seu trabalho. “Sobre o que escreves?”. “Sobre tudo, depende do estado de alma.”. Respondeu-lhe Malarte em sincronia da leitura de um poema que Elsa descobrira. “São poemas!?”. Malarte interrompeu a escrita e girou o cadeirão de modo a ficar voltado para ela. “Poema, romances, crónicas, histórias infantis, contos, ficção… muita ficção em geral… escrevo de tudo um pouco.”. Levantou-se e retirou das mãos de Elsa o papel para averiguar de que poema se tratava. Em continuo movimento Elsa escolheu ao acaso outro papel e iniciou a leitura em voz alta. “Lá foi ela ao teatro…”. Instantaneamente Malarte tentou lhe retirar o segundo papel, mas Elsa sumiu-se para o lado e cobriu com o ombro o flanco. “Não! Deixa-me ler.” Malarte conformou-se com a não prevista exposição do seu ego e sentou-se de volta no cadeirão a ouvi-la. “Lá foi ela ao teatro… fazer o alarde à carestia do grémio, porque na cultura que a ela doutrinam e nela gradualmente instituem, gemina o desconhecimento pela razão da existência das artes... e quem não compreende simula, na esperança de descobrir a relatividade do tempo que, para alguns, tem aquela hora – nunca ainda infindável, porque ela se esforça à sua compreensão, mas nunca tão súbita e marcante quanto a posse daqueles exímios na ciência do fingimento... aqueles como eu, cuja imagem irá nunca varar do reflexo de si mesma.”. Não inquiriu a Malarte a explicação sobre o que acabara de ler, pois teve vergonha de se aviltar por não compreender tão pequeno texto feito por um homem mais novo e com menos estudos que ela. Limitou-se a elogiar a sua clara aptidão para a escrita e, a arguir sobre o uso que deveria dar ao seu dom, com uma fingida convicção tão bem dissimulada que Malarte ficou convencido que o curso de comunicação social seria o melhor meio para que ele um dia pudesse levar a cabo o sonho de viver da sua arte. Reflectindo nesta ideia, Malarte decidiu inscrever-se na Universidade de Artes e Letras José Sierin, que ficava que Marvelive. Esta era a escola que possuía o dito curso mais próxima de Glowsea, a sua terra natal.&lt;br /&gt;Tal como Glowsea, a cidade de Marvelive ficava no litoral, algo que agradava Malarte, pois era o único sopro de natividade que poderia ter naquela terra tão desigual do local onde nascera e vivera toda a vida até aos vinte e dois anos. Havia passado dois anos desde a morte da sua avó e a partida Elsa Soares. Dois anos nos quais a imensa solidão forçada o logrou com a maturidade, até ali postergada pelo refúgio do mundo exterior. Entregue ao cuidado de si próprio, experimentou a feridade da solidão pelos inalteráveis vazios dias que se sucediam infindavelmente um a um. Um natal passado na casa da família da Dona Esmeralda, a amiga da sua falecida avó, foi suficiente nostálgica para que se encorajasse a passar os restantes natais sozinho. A família da matrona chefe das empregadas da empresa de limpeza que pela altura já não se encarregava da casa de Malarte por seu mando, bem que tentou por exagerados meios que o jovem integrasse a união familiar com se membro fosse. Mas foi uma inepta tentativa pois no mais à-vontade que o tentassem colocar mais ele se sentia desemoldurado. Então, no ano seguinte, entregou-se à definitiva condição de eremita, distanciado do mundo de que nada conhecia senão pelos livros que lia, pelas fugidias saídas ao pequeno centro comercial da terra e pelo pequeno ecrã de televisor cujas assistências se tornavam progressivamente mais sistemáticas. No dia de natal dos seus 21 anos desembrulhou o computador portátil com que se presenteou a si mesmo. Foi a primeira influência exercida pelo fascinante mundo que a televisão lhe transmitia, o universo encantador da publicidade. Mas foi também a primeira porta que abriu para fugir desse minúsculo orbe onde encarcerava a sua vida. O aparelho estava permanentemente ligado, sempre acessível para suportar os desabafos literários de Malarte. Nessa altura escreveu a sua primeira obra completa, um romance, onde o narrador era um personagem psicopata que tinha o mórbido prazer de obrigar por via psicológica as suas vítimas a cometerem crimes em série, num enredo que no final somente o mau ficava vivo. Demorou um ano a dá-la por concluída, intitulou-a “Dentro de si”. Apesar do tempo que a criação desta obra lhe tomava, a prioridade era dedicada à leitura repetitiva do correio electrónico que trocava com a Elsa. Da perspectiva de Malarte, Elsa escrevia-lhe do outro lado do mundo, pois comparativamente à rotina de Glowsea a vida de Elsa estava em permanente mudança. Ela contava-lhe relatos de aventuras que inspiravam Malarte a imaginar o que haveria para além da terra onde habitava. Malarte por sua vez nunca tinha novidades para lhe contar e, a sua vida parecia-lhe tão desinteressante que, acabava sempre por lhe enviar excertos das suas mais recentes histórias ou, poemas inspirados por um estado platónico de amor. Elsa sentia-se intimidada por receber textos bajulares tão profundos. Na verdade o que lhe comandava a vida era a razão, esse método de análise nunca impulsivo que lhe instigava a tomar sempre as opções mais conscienciosas. Para ela o mundo não era somente cor-de-rosa, mas tinha todas as cores, incluindo o cinza da tristeza dos amores perdidos, o negro das trapaças da vida e o branco da clareza em relação ao sentimentos que tinha por Malarte. Desejava que Malarte fosse bem concretizado na vida que chegasse a ser completo e feliz mas, não o amava. Foi isso que lhe disse na última carta que lhe enviou por correio electrónico. Malarte enterrou-se em melancolia por dias sem cessão até que deliberou partir definitivamente de Glowsea e procurar descobrir uma nova vida começando por retomar os estudos em primeiro lugar.&lt;br /&gt;Não se pode dizer ao certo, mas terá sido o desejo de manter contacto com Elsa que incitou Malarte a entrar no mundo virtual. Seguro é que, foi através da Internet que estabeleceu as primeiras amizades com pessoas de todos os cantos do mundo que, como ele, se mantinham num cativeiro desligado da realidade para além da vida virtual. Em informais encontros terapêuticos desbloqueava progressivamente a sua comunicação enquanto extinguia a sua personalidade introvertida. A transformação, estimulada pela vontade de descobrir o mundo, foi tão súbita que pela altura da matrícula na universidade já não era o mesmo Malarte que Elsa Soares conhecera. Tirou a licença de condução e premiou-se com um carro novo, um BMW, cujo modelo era apenas conduzido pelos ilustres de Glowsea. Concentrado no novo rumo de vida comprou todas as superfluidades que considerou necessárias à adaptação no seu novo estilo. Considerava investimento na sua pessoa a exageração dos gastos, para ignorar o que na verdade sentia. Estava mal habituado à gestão financeira pela falsa sensação de possuir uma imortal galinha dos ovos de ouro. O seu tesouro era sobretudo a sua casa – à qual os residentes de Glowsea chamavam, sem seu conhecimento, a mansão do anacoreta. Era a única na cidade construída inteiramente em pedra granítica, desde a cave até ao topo que sustentava o fascinante telhado de nove águas. A predominância do granito só não assemelhava a casa a um castelo, pelas amplas janelas voltadas para o rio e pelo pomposo alpendre que intercalava a madeira com a rocha. A pedra, por seu lado, era talvez o elemento mais faustoso. Sempre esculpida, nas janelas, nas portas, nas colunas do alpendre, nas varandas e na escadaria da entrada dentro de casa. E, em todo o piso do andar térreo, encontrava-se polida. Quanto ao terreno, era suficientemente grande para que o seu pai nunca optasse por delimita-lo com a construção de um muro, dado o elevado custo, mas com a plantação de mil árvores distanciadas dez metros entre cada uma, numa periferia que arrimava ao rio e estendia-se por trás do pequeno monte que se escondia na parte posterior da casa.&lt;br /&gt;Malarte não tinha a menor noção do valor deste património imobiliário, por isso contratou uma empresa de consultadoria financeira. Para seu espanto, o consultor que foi encarregue de avaliar e o consciencializar da dimensão da sua riqueza imobiliária foi Ângelo Salvador, o rapaz que retivera na memória como amigo às custas da sua heróica atitude. Acreditou veemente na proposta que Ângelo lhe apresentou, isto porque além de confiar nele, o valor o surpreendeu pelo desmesurado excesso. Ângelo Salvador tinha um inato dom persuasivo, subtil e atencioso. Todas estas qualidades fundiam-se no seu jeito formal que conquistava confiança instantaneamente. Nas conversas, sempre oportunas, explicava questões técnicas fazendo com que o próprio Malarte deduzisse a resolução da grande maioria. E Malarte sabia que, pelo menos grande parte eram argumentos justos, pelo que se tinha informado na Internet. Fisicamente Ângelo não era alto e era mais encorpado que Malarte, o que não era muito difícil pois Malarte era mais dado à magreza. Os olhos verdes penetravam pelo olhar de Malarte como que se se apoderassem dos seus pensamentos. O aperto de mão era rijo, não em demasia mas, era sempre prolongado tempo suficiente para desconcertar a sensação de liderança a Malarte. E fazia-o sempre acompanhando com um esboçado sorriso que fazia Malarte suspeitar que ele seria bem sucedido junto do sexo feminino. Com o desenrolar do tempo a confiança recíproca aumentou para um nível que excedia o âmbito profissional. Nos meses que decorreram até Malarte sair de Glowsea, todos os dias, Malarte foi visitado por o novo amigo. Malarte teve oportunidade de ouvir conselhos e pedir opiniões sobre essa incógnita que era a mentalidade feminina. Mas os temas iam mais longe e de tudo um pouco eles falaram, geralmente com Ângelo a suportar as suas conversas com base nas vicissitudes e Malarte no conhecimento que absorvia dos livros e da Internet, com uma capacidade de memória quase miraculosa.&lt;br /&gt;As afinidades assomaram-se a um ritmo extraordinário, de modo que, na hora de despedida de Malarte para Marvelive, foi com forte pesar que trocaram esperançosas promessas de manter a amizade. Ambos sabiam que seria difícil essa ligação, dado que, a distância entre eles seria grande e que nenhum dos dois se poderia apartar do local onde iria permanecer à força das obrigatoriedades da vida que construíam.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;IV&lt;br /&gt;Marvelive&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;À medida que Malarte percorria em reconhecimento as ruas de Marvelive, engrandecia-se o seu optimismo em relação aos anos vindouros. As estradas eram todas alcatroadas, algo que em Glowsea só se encontrava nas quatro ruas principais. Não se via um único vestígio de sujidade e a distância entre elas e os largos passeios dos peões continham sempre imensos espaços ajardinados com robustas palmeiras bem crescidas. As esplendorosas moradias expunham, aos passeantes das ruas, singulares traços arquitectónicos, somente similares entre as casas vizinhas pela magnificência e pela ausência de muros ou obstáculos divisórios entre o que era de domínio público e privado. À medida que se aproximava da zona central da cidade crescia a quantidade de lojas chiques em monstruosos edifícios de luxo. As montras gigantes com vidros limpos até à invisibilidade invocavam a atenção para os estilos elegantes e sofisticados dos seus interiores. Os estacionamentos dos automóveis em frente a estes comércios eram reservados aos clientes e estavam ocupados por carros que obrigavam humildade a Malarte. Numa avenida viu estacionar um Ferrari preto, de onde saiu um homem vestido com um fato escuro, sem gravata e com o botão do colarinho desapertado. Colocou os óculos de sol e caminhou ao outro lado da viatura onde um empregado da loja abria a porta do acompanhante. De lá de dentro saiu uma jovem senhora com os cabelos da cor do ouro e um vestido demasiado formal para fazer compras. Caminharam juntos para a loja onde até a porta foi aberta por outro empregado. Estava ainda tão pasmado a observar a elegância daquele casal e na atenção que lhes era dada pelos funcionários da loja que nem reparou que o semáforo alterara para a permissão de seguir. Ouviu as buzinas dos carros à retaguarda em sinal de impaciência pelo impedimento de seguirem para os seus destinos. Todos pareciam ter um. Toda a gente caminhava determinada na rua como se soubesse exactamente para onde ia. Ninguém parecia prestar atenção a mais nada senão ao próprio trajecto. Malarte prosseguiu e prestou mais atenção às pessoas. Todas airosas, aprumadas como se fossem ter um acontecimento especial nesse momento. Em Glowsea as pessoas só se vestiam com as melhores roupas para ocasiões excepcionais. E essas eram na maioria das vezes os casamentos e os funerais. Marvelive fazia-o sentir como se qualquer momento fosse especial. O sentimento de estar a entrar numa vida exclusiva empolou o desejo de ser idêntico aos demais. Inverteu a direcção, atravessando o traço contínuo e dirigiu para o estacionamento de uma loja. Estava tão motivado para mudar o seu aspecto visual como para se sentir capaz se satisfazer o caprichoso impulso da compra. Por isso nem ouviu os buzinões dos outros automobilistas, nem reparou no polícia que soprou no apito como se quisesse expulsar os pulmões através dele. Saiu do carro determinado em concretizar a razão da sua alegria. Um empregado abriu a porta e dirigiu-se a ele. “Boa tarde.” Cumprimentou Malarte. “O senhor não pode estacionar aí.” Respondeu-lhe o funcionário.&lt;br /&gt;– Como não posso? A placa diz que é parque da loja.&lt;br /&gt;– É para clientes.&lt;br /&gt;– Eu sou cliente… – Neste ponto a conversa foi interrompida por uma senhora.&lt;br /&gt;– Que se passa Carlos? – Antes que o empregado pudesse responder à chefe Malarte sobrepôs o esclarecimento:&lt;br /&gt;– Nada. Eu apenas estacionei no lugar da loja. É para clientes, não é?&lt;br /&gt;Ela olhou para o carro e respondeu que não, que o parque se destinava a cargas e descargas, contudo convidou Malarte a entrar sem lhe pedir para remover o veículo. Ele entrou passando um ar altivo sobre o funcionário que lhe segurou a porta.&lt;br /&gt;O espaço da loja era tão amplo que quase parecia que não havia nada para vender. Uma moça aproximou-se e perguntou-lhe se o podia ajudar. “Vendem roupas não é? Quero comprar algumas para mim.”. “Com certeza que quer.” Respondeu a empregada e continuou.&lt;br /&gt;– Tem alguma peça em mente?&lt;br /&gt;– Não exactamente. Quero mudar o meu visual. Quero algo… fashion. Algo que melhore o meu aspecto para um estilo moderno e elegante, compreende?&lt;br /&gt;Com um sorriso a empregada completou o “Perfeitamente” e chamou outros seis colegas. Uns atrás dos outros foram exibindo os modelos diferentes que tinham e aconselhando sobre as tendências da estação. Malarte sentiu-se um príncipe rodeado de todo o cuidado que alguém importante pode usufruir. Viu ao espelho uma pessoa irreconhecível. Era um novo Malarte, aperfeiçoado pela estética pessoal ao ponto de lhe arrancar risos disparatados.&lt;br /&gt;– Levo este, este, este. Aqueles. O outro… em cinza e em preto. E… – Incontido o desejo, pela necessidade que pensava ter daquelas roupas, parecia que ainda faltava mais qualquer peça. – Já sei. Agora necessito de um fato… elegante. – E acertaram em cheio na primeira sugestão. Trouxeram um fato cinza escuro, parecido com o fato do senhor que ele, momentos antes, havia visto entrar noutra loja. Satisfeito por achar que comprara tanta roupa quanto aquela que lhe quebraria a rotina do visual, deu por terminada a sessão. Mas ainda acabou por escolher mais umas camisas para condizer com o fato e algumas roupa interior que se esquecera de ver. Perguntou, por curiosidade, o custo do fato e a resposta deixou-o congelado a imaginar o valor total das compras. Teve todos os motivos para o fazer pois o preço das aquisições desse dia superavam o valor que tinha pago pelo carro que actualmente possuía.&lt;br /&gt;– Há algum problema, senhor? – Perguntou-lhe a moça que o acompanhou no pagamento.&lt;br /&gt;– Não. Nenhum. – E dissimulou a fraca convicção da compra prosseguindo dizendo “Estou a ver se me esqueci de mais alguma coisa.”. E auto convenceu-se pensando: “De que serve o dinheiro se não me fizer sentir melhor?!”.&lt;br /&gt;– Onde quer que lhe entreguemos as compras? – Perguntou outra senhora com um caderninho na mão.&lt;br /&gt;– Não é necessário… eu vou levo-as agora.&lt;br /&gt;– Infelizmente os ajustes que temos que fazer só nos permitirão entregar a encomenda em dois dias.&lt;br /&gt;Malarte deu-se conta que as peças eram feitas à medida e certamente a demora seria habitual naquele género de estabelecimentos. Não quis se envergonhar pelo desconhecimento e respondeu que na verdade era de fora e até agradecia que lhe indicassem um local onde se pudesse hospedar. Foi lhe sugerido o “Imperial State Hotel”, que seria um dos hotéis mais “cómodos” da cidade. Como veio a descobrir era o hotel onde as celebridades ficavam sempre que passavam por Marvelive. Aceitou a opinião e despediu-se da gerente que veio ao seu encontro à mesma porta onde o recebera. Compondo uma curta frase com palavras de intrincada decifração, desejou a continuação de um bom dia e pediu-lhe que na sua próxima visita não estacionasse no lugar em frente à porta da loja. Ainda a decifrar mentalmente a advertência, Malarte saiu de mãos a abanar pouco seguro de ter tomado uma boa atitude por ter entrado naquele lugar. Ao sentar-se ao volante reparou que possuía uma multa no vidro que verificou ser por inversão de marcha em sítio proibido. Rasgou-a, sabendo contudo que acabaria por ter que a pagar. A partir daquele instante a felicidade que sentira ao entrar em Marvelive já murchara. Enquanto procurava alguma indicação do hotel pensava na ideia que tivera de deixar Glowsea e se aventurar por um mundo desconhecido que lhe trazia o risco de o fazer se sentir inseguro. Lembrou-se da sua casa, que fora dos seus pais e lentamente percebeu o quanto aquele lugar o fazia se enclausurar numa vida sem objectivos. Sair de Glowsea pareceu-lhe ter sido a única opção. Encostou à berma e entrou no estabelecimento mais próximo para perguntar como chegaria ao hotel. Era um gabinete de advogados cujo curioso slogan da empresa suscitou-lhe a atenção, “A lei é cega mas nós temos os olhos abertos!” estava escrito mesmo por baixo do nome da firma “Direito &amp; Filhos, S.A.”. Uma jovem estava na recepção, parou as suas tarefas e cumprimentou-o gentilmente. Os seus olhos eram a imagem do céu num dia limpo e brilhavam como se fossem dois diamantes aos olhos de um ourives. No embaraço de Malarte a jovem libertou um sorriso portador de uma alegria que instantaneamente saturou aquele contacto. Malarte sorriu também. Pediu-lhe a informação e depois justificou desnecessariamente a questão repetindo a sua condição de forasteiro acabado de chegar à cidade. Ela riu-se pelo jeito dele, deu-lhe as boas vindas e indicou-lhe a “Avenida da Paz” onde se situava o hotel. Seria espantoso pensar como uma trivial troca de palavras repescaram em Malarte o ânimo de quem vive uma descoberta emocionante. De novo a cidade embasbacava pelo esplendor dos pormenores. Como os simples caixotes de lixo que, até esses, tinham um design original e eram feitos em inox de boa qualidade enquadrados com os gigantes candeeiros que à noite iluminariam completamente a rua quase como se fosse dia. Tudo era perfeito como demandavam as séries televisivas dos ricos de Hollywood que Malarte assistira sem perder episódio. Por esse momento pouco mais ele conseguiu conhecer pois o hotel “Imperial State”, onde se hospedaria, ficava mesmo na avenida ao virar da esquina.&lt;br /&gt;Entrou com uma mala apenas e pediu um quarto singular. O único disponível era uma suite de topo. O chefe da recepção avaliou-o discretamente e prevenindo os interesses do hotel pediu a Malarte um depósito de dinheiro que serviria até à data de saída. Ele fê-lo sem contestar, pagou ainda a primeira noite e entregou uma boa gorjeta ao empregado que lhe transportou as malas e lhe deu a conhecer os aposentos.&lt;br /&gt;A surpresa invadiu-o. O quarto era fenomenal. Logo à entrada reconheceu que nunca antes estivera rodeado de tanto bom gosto decorativo. O piso, feito de compridas réguas de madeira, estava repleto de enormes carpetes bordadas com o logótipo do hotel. As paredes tinham quadros de grandes dimensões pintados a óleo, ao pormenor e à exigência do estilo renascentista. Segundo o empregado, eram a representação do jardim de éden e foram pintados por um famoso pintor, natural de Marvelive, José Sierin. Mas o que mais cativava o olhar era um enorme piano de cauda preto que estava mesmo ao centro da sala. O empregado saiu e Malarte ficou a passear apreciando os pormenores. Reparou que tinha música ambiente. Clássica e alegre. Entregue à sua privacidade irrompeu a vontade e começou a cantar e a dançar de um lado para o outro nesse jeito leigo de quem nunca teve oportunidade de aprender a faze-lo. Passou para outra divisão, sem portas divisórias, onde a área era tão grande que só reconheceu ser o quarto pela cama que se encontrava ao fundo da divisão mas desencostada quatro metros da parede, entre duas estátuas de madeira de um metro de altura cada. Representavam mulheres, cada qual na sua posição a segurar uma plataforma que servia como mesinha de cabeceira da cama cujas proporções eram tão desmesuradas quanto todo aquele espaço apenas para uma pessoa sozinha. Malarte correu para ela, num grito de satisfação mergulhou-lhe para cima e a queda foi suavemente amortecida por um colchão fofo que o deixou rendido ao relaxamento. Absorvido pela inacção reparou nas pinturas que ornamentavam o teto entre o relevo circular do gesso. Não poderiam variar da luxuosidade do Hotel. Representavam dois amantes no leito da intimidade. A mulher parecia ter um misto ar de tristeza e alegria, enquanto o homem mantinha o braço erguido em direcção a uma janela aberta. Malarte deixou-se levar pela fantasia e deu vida aos corpos estáticos e ouviu a mulher sussurrar “É um mundo grande lá fora. Quem sabe o que te espera?”. Rolou a sua cabeça em direcção à porta que dava para o terraço do quarto. Levantou-se e foi espreitar. A cidade estava toda ali, aos pés do décimo andar do prédio mais alto das redondezas. Ao fundo viu o mar e as colinas limitando a paisagem. No miolo geográfico havia casas lindas somente pelo telhado, a copa de milhares de árvores e prédios onde prendeu a visão para imaginar o milhão de inigualáveis vidas que decorriam distribuídas dentro de cada propriedade horizontal. Olhou para baixo e ficou a tentar acompanhar com o olhar a azáfama da noite que tomava lugar. Reconheceu duas limusinas que se passeavam devagar frente ao hotel e um Ferrari amarelo que acelerou disparando um som de fórmula um que excitou o próprio Malarte no seu décimo andar. Imaginou-se a conduzi-lo enquanto via a pujança da sua aceleração a passar pela faixa contrária e subitamente a chocar contra uma mota que seguia no sentido oposto. Malarte alertou-se para a cena, tentou decifrar se a visão não o enganara. Mas não, alguém ficara estendido no chão ao lado da moto que conduzia e o Ferrari escapulira-se sem parar. Só ao fim de alguns minutos outras pessoas ajuntaram-se à cena para ajudar o condutor do velocípede. A ocorrência terminou ao fim de quinze minutos depois da partida dos carros de emergência. Mas ficou registado na cabeça de Malarte, pela noite toda, a situação testemunhada e não foi capaz de dormir a imaginar a cobardia desse alguém que provocara o acidente viário e nem prestara qualquer cuidado à vítima. De facto a vida por os lados de Marvelive era bem diferente da sua terra natal. Em Glowsea a vida era tão inócua que todos pareciam arranjar tempo para viver a especulação da vida alheia. Ali, em Marvelive, todos pareciam demasiadamente penetrados nos seus afazeres, ao ponto de não prestarem cuidado ao que se passava à volta.&lt;br /&gt;A manha seguinte chegou cheia de luminosidade, que impediu Malarte de tentar se render ao sono não dormido. A emoção de participar na nova vida era tanta que, em toda a noite não pregou olho, apesar do cansaço. Saiu do hotel antes ainda da hora que pedira para ser servido o pequeno-almoço. E foi a pé conhecer um pouco melhor a cidade. Tomou café na primeira pastelaria que viu a abrir as portas. Entre que saboreava o bolo que escolhera deu uma espreitadela no jornal local “Marvelive Post” cuja manchete noticiava um falecimento. A curiosidade de saber quem tão importante poderia dar lugar a tal destaque fez Malarte ler todo o artigo. Tratava-se de alguém certamente muito poderoso, no caso; poderosa. A condessa Filomena Nobre, descendente de pais portugueses que emigraram para aquele país há cem anos atrás. Abastados o suficiente abriram o primeiro retiro turístico no local onde fundariam posteriormente Marvelive. O negócio prosperou, criou emprego para centenas de pessoas e gerou um efeito económico tipo “bola de neve” que estimulou o crescimento urbano da zona. As aparições da cidade em diversos filmes das décadas de 60 e 70 do século XX revigoraram a posição da cidade no mapa dos destinos famosos. O hotel da família Nobre em breve seria destruído por razões estratégicas e o terreno vendido em lotes onde foi implantada a zona nobre da cidade mas, aquele negócio hoteleiro propiciou que a família Nobre chegasse a possuir a maior cadeia de hotéis de todo o continente. Infelizmente, ao que Malarte entendeu nas entre linhas do artigo, a Condessa Filomena morreu na velhice disposta à solidão. Não possuía descendência e todo o seu património foi atribuído, em testamento hológrafo, ao governo da cidade.&lt;br /&gt;O empregado veio à mesa entregar o troco a Malarte. Ele estava abstracto fitando a foto da condessa e o rapaz notou o seu alheamento.&lt;br /&gt;– Avareza.&lt;br /&gt;Malarte despertou e tentou perceber.&lt;br /&gt;– Desculpe?&lt;br /&gt;– Aí… tanto dinheiro e tanta sovinice… não lhe serviu para ter amigos, nem lhe servirá agora para mais nada.&lt;br /&gt;– Ah, sim… – Malarte compreendeu que o rapaz falava da condessa – o dinheiro por si só não é a felicidade…&lt;br /&gt;– Ai não?! – Retorquiu o empregado como se esperasse uma resposta de Malarte.&lt;br /&gt;– Não. É a forma como se o usa.&lt;br /&gt;– Sim. Se eu o pudesse gastar em festas, bem que ficava feliz.&lt;br /&gt;– Ao que li, parece que ela deixou os seus bens para a cidade.&lt;br /&gt;– A sério?! – Disse numa ironia humorada – Vou lá buscar a minha parte, então.&lt;br /&gt;Aproveitou Malarte o gracejo e aumentou-lhe a piada com um mórbido cunho pessoal.&lt;br /&gt;– Talvez a cidade decida fazer uma festa com esse dinheiro…&lt;br /&gt;E o rapaz colaborou e completou:&lt;br /&gt;– Imagino o slogan: “Morreu a condessa, venha festejar connosco!”.&lt;br /&gt;Ambos desataram a rir num tom que deixou grande parte dos clientes da casa a olharem para os dois.&lt;br /&gt;Quando acalmaram Malarte olhou para o relógio da parede e como se tivesse muito ocupado despediu-se. Mas antes aproveitou para perguntar a localização da Universidade José Sierin.&lt;br /&gt;– Necessita ir de transporte pois ainda fica bastante longe.&lt;br /&gt;– Eu tenho carro. Não conheço é nada aqui na cidade.&lt;br /&gt;– Ah! Não é fácil então… É novo por estas bandas!? Veio estudar?!&lt;br /&gt;– Sim. É o meu primeiro ano.&lt;br /&gt;– Pois bem… Olhe se quiser eu poderei o levar lá, também lá estudo e tenho que lá ir ainda hoje. Mas só estou livre à tarde.&lt;br /&gt;– À tarde, está óptimo para mim. A que horas exactamente passo para te pegar?&lt;br /&gt;– Depois dos almoços. Nunca há uma hora certa de acabar…&lt;br /&gt;– Vocês servem refeições aqui? Então venho cá almoçar, assim indicas-me quando estiveres pronto. Está bem assim? Agora tenho que ir. Obrigado!&lt;br /&gt;– Já agora, chamo-me Ricardo. – Retirou o bloco de apontamentos do bolso e anotou algo. – Toma, este é o meu número de telemóvel, qualquer coisa… liga-me.&lt;br /&gt;Malarte não possuía telemóvel pois nunca necessitara de um. Não tinha muita a necessidade de estar sempre contactável porque, até então, o grupo de pessoas conhecidas era restrito.&lt;br /&gt;– Obrigado. Ah… Malarte. Prazer. Até logo!&lt;br /&gt;E saiu, embaraçado pela preterição da matéria e com uma súbita coação para adquirir um urgentemente. Mas o seu enleio dava a sensação de ser motivado pela pressa de cumprir alguma tarefa. Na verdade não havia nada que comprometesse os horários de Malarte. Nem ele sabia bem como ocupar o seu tempo até chegar à hora de voltar àquele restaurante para que Ricardo o levasse a conhecer a escola.&lt;br /&gt;Esse momento chegou, depois das três horas, ainda foi Ricardo que esperou que Malarte acabasse de almoçar para poderem seguir. Malarte demorara-se a fazer algumas compras entre as quais o equipamento móvel de telecomunicações. Era uma pequena maravilha da tecnologia, um topo de gama cujas funcionalidades eram em número maior do que a paciência que se poderia dispor para apreender a usa-las. A caminho da escola Malarte pediu para que Ricardo consultasse o seu número no telemóvel e ele ficou tão impressionado com o brinquedo que se distraiu nas direcções que tinha que dar. Malarte foi jactancioso sem saber que se derivava ao facto da atenção por algo que era seu mais do que pelo material em si. Estacionou frente à entrada principal da escola, num lugar reservado a celebridades (tal como dizia, literalmente, na placa). Chamado à razão por Ricardo, Malarte respondeu:&lt;br /&gt;– Eu sou uma celebridade! – Disse-o na brincadeira, mas Ricardo não entendeu.&lt;br /&gt;Com uma confiança invulgar à sua personalidade avançou pela entrada principal, interdita a alunos. Dois funcionários estavam na galeria de entrada e observavam-no. Um quis lhe pedir que se identificasse derivado ao uso do estacionamento que ele estava encarregue de controlar, mas manteve-se inerte por não sentir Malarte vacilar na sua atitude nem um pouco ao passar por ele. O outro funcionário abriu-lhe a porta. Ricardo segui-o intimidado pela incerteza de estar de facto perante alguma celebridade ou de alguém pouco consciente das penalizações para os que ousassem desrespeitar as normas da universidade.&lt;br /&gt;Pelo interior da universidade, podia-se ter uma percepção mais exacta da fulgência do edifício. Foi construído por os condes Nobre, para sua residência familiar. A arquitectura ecléctica era única na cidade derivada à grande profusão de estilos. A família Nobre, influenciada pela mentalidade romântica que se vivia no século XIX em Portugal, elevou a excentricidade ao um nível desconhecido no país. Essa imagem ajudou a que o negócio de hotelaria fosse divulgado indirectamente entre o público-alvo pretendido, as elites.&lt;br /&gt;Durante as primeiras seis décadas a residência não deixou de ser engrandecida, quer a nível imobiliário, quer pela aquisição de obras e móveis. Só em 1961 a residência foi transformada em universidade após a sua doação a uma entidade de ensino privado que, na altura, o fazia – sem lucro – pela servidão à comunidade.&lt;br /&gt;Malarte penetrou numa divisão ampla designada por sala dos tempos. Era na verdade uma sala de aparato, destinada ao memorial de ilustres que se relacionavam com a génese da família. Retratos enormes e sombrios estavam pendurados na parede e nas identificações podiam-se ler nomes de reis como o de D. Manuel ou, o de Carlos II de Inglaterra. Ao fundo da sala o maior quadro exibia a família Nobre. Pais e filha. Num quadro ao lado Malarte reconheceu o rosto de Filomena mais envelhecido, por ser a fotografia que ele vira na capa do jornal na mesma manha, encontrava-se sozinha e com um ar tão altivo que, ainda que fosse apenas tela e óleo, causava temores.&lt;br /&gt;Ricardo não se prendeu por muito tempo a contemplar as obras plásticas e chamou Malarte de outra sala seguinte. A sala dos brasões, cuja cúpula ostentava as armas da família Nobre e de trinta e oito das mais importantes famílias da Nobreza portuguesa. As paredes eram totalmente cobertas de azulejos de José Sierin. Ao centro um busto da autoria de Picasso homenageava-o com a dedicatória “Ao artista. Ao amigo.”.&lt;br /&gt;– Como é que um pedaço de sucata pode ser tão valioso? – Criticou Ricardo em modo retórico mas obteve uma inesperada resposta.&lt;br /&gt;– Braque e Picasso foram os primeiros artistas a realizar pesquisas simultâneas de novas formas de representação. Ambos foram influenciados pela produção de Cézanne, descrita em 1904 pelo pintor e escritor francês Émile Bernard como uma maneira de "tratar a natureza por meio do cilindro, da esfera, do cone”.&lt;br /&gt;Ricardo estava boquiaberto a escutá-lo, não se atreveu a comentar mas Malarte concluiu;&lt;br /&gt;– Ser pioneiro é sinónimo de contribuir para a progressão da nossa espécie, é natural que as obras de Picasso sejam, para além do resto, valorizadas pelo carácter histórico.&lt;br /&gt;– Nunca tinha entrado nestas zonas. O que aqui tem é magnífico!&lt;br /&gt;Era um facto. Mas o esplendor do edifício estava uniformemente distribuído por ele todo, desde as salas onde se leccionava, até ao pátio interior cercado por sessenta arcos quebrados, passando pela capela de estilo mudéjar, em todo o lado se encontravam valiosas peças de arte. Não fosse aquela uma universidade de artes e letras localizada numa cidade onde só parecia existir luxaria.&lt;br /&gt;Malarte acabou por passar o resto do dia com Ricardo a conhecer a escola e a preencher os formulários de ingresso que estavam em falta. Mas acabou por não completar a inscrição pois para aceder àquele estabelecimento de ensino ou se tinha um apelido reconhecido ou era sempre necessária efectuar uma entrevista com o reitor da universidade. Ricardo confessou ter tido uma cunha aquando da entrada porque tal como ele hiperbolizou era “mais fácil arranjar um pedido do papá para o reitor do que passar na entrevista”. Isso não inquietou Malarte, pois a sensação de segurança em si mesmo aumentava a cada hora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;V&lt;br /&gt;Destino e coincidências&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Face ao que vira, o seu quarto de hotel parecia-lhe mais modesto. Sentou-se em frente ao piano a carregar aleatoriamente nas teclas e reparou de novo no quadro desse quarto. Levantou-se e junto ao quadro leu a assinatura “José Sierin”. Acabou por estender a observação da pintura tendo em conta a notoriedade que o artista parecia ter ganho. A obra que, supostamente, representava o jardim do éden era abstracta em demasia para que a observação de um leigo conseguisse interpretar o seu significado. Entretanto o seu telemóvel toca. Só ao fim de um bom bocado é que ele se apercebeu que era o seu telemóvel pois era a primeira vez que o ouvia. Ricardo convidava-o para saírem depois do jantar, para que lhe pudesse apresentar uma casa nocturna que estava em moda. Inconfessavelmente Ricardo não o convidara pelas afinidades mas porque desejava testar a sua confiança, ou mesmo vê-la desmoronar, barrado pelos seguranças do bar mais selectivo existente em Marvelive, o “Apolo Club”. Ricardo nunca conseguira entrar nesse bar, apenas sonhava como seria baseado nos relatos de alguém que conhecia outra pessoa que já lá havia entrado. Malarte teve que recusar, falsamente desculpando-se com um encontro que havia combinado com uma amiga. A questão é que Malarte não sentia ter roupa adequada para esse fim. Se tudo corresse como prometido pela funcionária da loja, no dia seguinte já teria a sua roupa. E assim foi, ao meio-dia tocou o telefone, era da recepção informando da chegada das encomendas.&lt;br /&gt;Vestido com roupa de inconfundível qualidade e que, ainda por cima, lhe acentuava o brando perfil atlético, sentiu-se mais seguro de si mesmo. Pronto para a entrevista agendada com o reitor.&lt;br /&gt;Não pôde estacionar no lugar onde havia deixado o carro no dia anterior porque nesse momento um Jaguar encontrava-se a ocupá-lo. Sujeitou-se a outro lugar uns metros à frente, ainda infringindo, de novo, a indicação de reserva para docentes. Os empregados cumprimentaram-no e seguraram-lhe a porta para entrar, sem estranharem que não lhe competia o lugar de estacionamento. Ficaram convictos do direito de Malarte ao espaço e não confirmaram a permissão apesar da importância que essas questões tinham para a administração da universidade. O trabalhador que anteriormente desempenhara a função de controlar o parque fora demitido por autorizar que um veículo com mau aspecto lá aparcasse.&lt;br /&gt;A reunião (tal como a assistente do reitor gostava de tratar as entrevistas), não começara na hora prevista. Com as desculpas transmitidas pela assistente, Malarte aguardou na sala de espera a tomar um café. Esta sala era outra divisão majestosa que, mais se assemelhava a um salão de chá dentro de uma biblioteca. Tinha dois andares de altura. De cima a baixo as paredes estavam repletas de prateleiras cheias de livros. Havia uma escada fixa que dava ao patamar do piso superior que dava a volta à sala, este serviria apenas para que o acesso aos livros fosse mais cómodo.&lt;br /&gt;Sentado num dos múltiplos divãs que se encontravam espalhados pela sala, ouviu o rojar da porta a abrir e levantou-se. Uma rapariga entrou acompanhada pela assistente do reitor e ela apresentou-os.&lt;br /&gt;O nome da rapariga que aparentava estar na casa dos 20 era Sandrina. A estupefacção de Malarte ao vê-la deu lugar ao entendimento de que não se tratava do reitor mas sim de outra aluna que viera para o mesmo fim. Foram deixados a sós e Malarte em vez de tomar a iniciativa de falar ficou a olhar o seu braço direito engessado. Foi ela que primeiro o abordou.&lt;br /&gt;– Então… o forasteiro vem a Marvelive para estudar.&lt;br /&gt;Malarte olhou melhor para ela tentando perceber como ela notara que ele viera de fora. Rapidamente se lembrou.&lt;br /&gt;– Tu és aquela rapariga do…&lt;br /&gt;– A quem pediste informações sobre a localização do hotel, sim.&lt;br /&gt;– Daquela firma de advogados…&lt;br /&gt;– Direito &amp; Filhos.&lt;br /&gt;– Exacto. A do slogan: “Se a lei é cega nós temos os olhos abertos!”.&lt;br /&gt;Riram em turno dissonante, como se fosse o som de um velho motor de um carro.&lt;br /&gt;– Porque nos estamos a rir? – Questionou Malarte.&lt;br /&gt;– Não sei.&lt;br /&gt;O ridículo provocou então risos simultâneos que quebraram qualquer formalismo que pudesse haver naquele momento.&lt;br /&gt;– Acho que deve ser do nervoso miudinho, por causa do Dr. Cervante.&lt;br /&gt;– Quem? – A pergunta inocente de Malarte voltou a provocar risos, agora mais unilaterais para Sandrina.&lt;br /&gt;– O reitor, ora bolas! Para que estaríamos aqui senão?&lt;br /&gt;– Não é aqui que se obtêm bilhetes para o “Apolo Club”? – E voltou a provocar os risos de Sandrina.&lt;br /&gt;– Não esperava me rir assim tanto neste local. Acho que estou mais nervosa do seria de esperar.&lt;br /&gt;– O que há assim de tão grave lá dentro? Digamos, o que é que pior que te pode acontecer?&lt;br /&gt;– O pior!? É não ser aceite! Mesmo com a “simpatia” que o meu pai teve com esta escola, o curso já não tem mais vagas e as minhas notas não são as melhores.&lt;br /&gt;Malarte questionou-se sobre o significado de “simpatia” mas não quis parecer ingénuo.&lt;br /&gt;– E tu… em que curso te queres inscrever?&lt;br /&gt;– Comunicação social. – Afirmou Malarte.&lt;br /&gt;– Outro… É como Artes, o meu curso, está completamente cheio. Que factores é que tens a teu favor?&lt;br /&gt;– Felizmente tenho boas notas. Muito boas, na verdade.&lt;br /&gt;– E…? Quem mais te vai valer?&lt;br /&gt;– Como assim? As minhas notas de acesso ao ensino superior estão entre as cem mais altas do país. Achas que não chega?&lt;br /&gt;– Chega, se for para uma escola pública, chega. Até podes escolher, mesmo depois dos cursos estarem lotados. Mas para a “José Sierin” não!&lt;br /&gt;Pelo único momento em que Malarte esteve em Marvelive ele duvidou de conseguir os seus propósitos.&lt;br /&gt;– Então para que vou eu à entrevista?&lt;br /&gt;– Não sei. Acho que no teu caso vais para mostrar o quanto podes simpatizar com a universidade. – Malarte começou a entender a mensagem.&lt;br /&gt;– Simpatizar com este local é o mesmo que pagar para poder entrar.&lt;br /&gt;– Chiu! Aqui não é o local ideal para apreenderes sobre esses interesses, quanto mais falar deles! De qualquer forma, não se “paga” para além das propinas para cá se estudar. Existe é a possibilidade de fazer donativos que não são, de modo algum, obrigatórios… – Continuou mas em volume de sussurro – não é obrigatório mas também não entras. Isso te garanto!&lt;br /&gt;Entretanto entrou a assistente do reitor e pediu para que Sandrina a acompanhasse. Ao se despedir com um aperto de mão de Sandrina ela codificou-lhe o alvitre que lhe queria repetir:&lt;br /&gt;– Nem a pedido do papa… – Malarte já ouvira a mesmíssima expressão pela boca de Ricardo.&lt;br /&gt;Três horas mais tarde, Malarte saia da escola abrindo a porta pela própria mão. Encontrou junto ao lugar reservado a celebridades o funcionário que costumava estar no átrio a tentar ignorar a argumentação de Sandrina.&lt;br /&gt;– Como quer que vá para casa? Você não me pode bloquear o carro!&lt;br /&gt;E pelo único instante o funcionário respondeu;&lt;br /&gt;– Posso e já o fiz. Amanha poderá levantar o seu veículo. Passe na secretaria.&lt;br /&gt;Malarte interveio.&lt;br /&gt;– O que é necessário para o desbloquear?&lt;br /&gt;– A autorização do reitor. Só uma ordem directa dele me fará retirar o bloqueador. Compreendam, ou é assim ou ainda arranjo sarilhos. Eu preciso deste emprego.&lt;br /&gt;Sandrina e Malarte olharam um para o outro com ar de renunciarem à insistência, mas Sandrina tentou uma última vez.&lt;br /&gt;– O carro é do meu pai! – O funcionário fez-se surdo. – Como vou embora?&lt;br /&gt;– Se quiseres posso te dar uma boleia. – Propôs Malarte.&lt;br /&gt;Durante a viajem, que se previa curta, ambos conversaram sobre diversos temas.&lt;br /&gt;– Como correu a tua “reunião” com o reitor?&lt;br /&gt;– Entrei! – Vociferou Sandrina numa tonalidade triunfante. – E a tua, que tal?&lt;br /&gt;O ar de Malarte não suspeitava notícias animadoras.&lt;br /&gt;– Bem… a entrevista não correu lá muito bem. Lá o doutor não deixou de me pressionar com questões que eu acho que excedem o seu direito de informação…&lt;br /&gt;– Então… não te aceitaram!?&lt;br /&gt;– Acho que ouvi isso, implicitamente. Portanto, tive que me adiantar à resposta definitiva e joguei com a minha total “simpatia”…&lt;br /&gt;Sandrina continua a olhar para Malarte e esboça gradualmente um sorriso enquanto se certifica do uso da metáfora.&lt;br /&gt;– Eu sabia! Fizeste um donativo!&lt;br /&gt;– Forçado! Praticamente só me faltou lhe dar a carteira de cheques, assinados e em branco!&lt;br /&gt;– Isso seria a verdadeira simpatia…&lt;br /&gt;– Não sei como te agradecer a preciosa dica…&lt;br /&gt;Sandrina voltou a esboçar um sorriso.&lt;br /&gt;– Há-de te ocorrer uma forma.&lt;br /&gt;Com este pequeno problema resolvido tiveram oportunidade de divagar descontraidamente na conversa e se conhecerem ligeiramente mais. Por sugestão de Sandrina que, quis assumir o papel de boa anfitriã, deslocaram-se para oeste, no sentido oposto ao mar, em direcção às colinas que limitavam o concelho de Marvelive.&lt;br /&gt;– Vira aqui! – Comandou a Sandrina para que saíssem da estrada alcatroada e tomassem um caminho de terra batida, quase encoberto pelos brumosos ramos das árvores.&lt;br /&gt;O caminho de terra batida deu lugar a um troço com buracos e pedras que obrigavam a reduzir a velocidade a um ritmo de precaução. E, quinhentos metros depois, a pista era mais parecida com um caminho de corta mato. Ambos continuavam a conversar entusiasmadamente alheios às dificuldades do percurso. Um pneu entrou num buraco maior e fez uma pedra ser projectada contra o fundo do carro. O embate produziu um estalo semelhante a ferro a quebrar. Assustados com a possibilidade pararam o carro e saíram para verificar. Aparentemente não havia danos. Malarte perguntou se ela sabia para onde os estava a levar e, em brincadeira, se não tencionava o levar para o meio da floresta para o raptar. Ela riu e respondeu à medida.&lt;br /&gt;– Da última vez que trouxe alguém para violar por estas bandas o caminho estava em melhores condições. – E continuou um pouco mais séria – Estamos quase lá. O pior do caminho já passou mas, se quiseres, podemos ir a pé desde aqui.&lt;br /&gt;– Se dizes que a estrada à frente é melhor, não vejo porque não seguirmos com o carro.&lt;br /&gt;Ainda não tinham percorrido cem metros e Malarte já estava mais concentrado na condução cuidada do que, a participar na conversa de Sandrina. Do lado esquerdo apareceu um campo aberto, sem árvores e cercado, o que acalmou Malarte com o pensamento que se estavam a aproximar de algum local menos agreste. As árvores pareciam maiores, mais velhas, mais altas e mais espaçadas entre si. O piso estava coberto de erva rasteira e fina. O trajecto identificava-se segundo os espaços mais vazios entre as árvores. Começaram a subir uma elevação no terreno, pouco íngreme mas que, não deixava visibilidade para o outro lado.&lt;br /&gt;– É já depois desta colina.&lt;br /&gt;Chegaram ao topo e saíram o carro. Sandrina estava entusiasmada pelo que dava a conhecer. E Malarte surpreso com a visão.&lt;br /&gt;Um lago cativava toda a contemplação sobre a paisagem pelas sua águas azuis de tonalidade tão fria que, não pareciam só reflectir o azul do céu mas sim, ter cor própria. Nelas nadavam centenas de patos, gansos e cisnes ornamentando o refúgio campestre com a serenidade de quem vive a bonança. O conjunto da cena natural completava-se com as colinas de linhas suaves que emolduravam este retrato e o preservavam num micro clima equilibrado de calor e humidade. Haveria esta visão de se fixar às memórias de Malarte e ser a última imagem que recordou no leito da sua morte.&lt;br /&gt;– É lindo, não é? – Perguntou Sandrina sem no entanto duvidar da resposta dele;&lt;br /&gt;– É o lugar mais bonito do mundo!&lt;br /&gt;Sandrina encheu-se de orgulho.&lt;br /&gt;– …que eu já tenha visto! – Moderou Malarte.&lt;br /&gt;Voltaram a entrar no carro e contornaram o lago calcando terreno bravio. Para acréscimo do espanto de Malarte com o local, logo depois de subirem outra ligeira colina, avistaram um complexo turístico aos pés de uma extremidade do lago. Um edifício moderno assentava num só piso sobre pilares de betão armado. Um grande vitral colocava voltadas, em primeira fila, para o lago as mesas que se reconheciam entre a transparência do vidro. Ao lado direito, um terraço suportava uma esplanada coberta com guarda-sóis garridos. O impacto da visão inesperada colocou Malarte na indecisão se o edifício estava exuberantemente bem posicionado ou se provocava um contraste pecaminoso com a natureza.&lt;br /&gt;Ao retomarem o piso condutível, por entrarem para o parque de estacionamento alcatroado, Malarte reparou nas vias de acesso distintamente mais fáceis de percorrer.&lt;br /&gt;– Mas… há um acesso alcatroado até aqui!?&lt;br /&gt;– Sim, há. Eu sei. Viemos por aquele atalho porque eu acho as vistas mais bonitas.&lt;br /&gt;Sentados na esplanada satirizavam da opção;&lt;br /&gt;– Sim, de facto é um atalho muito prático, evitamos o trânsito (inexistente) …&lt;br /&gt;– E se tivéssemos vindo por essa estrada tínhamos chegado trinta minutos mais cedo.&lt;br /&gt;Enquanto bebiam um batido de morango trazido por um empregado fardado a rigor, olhavam o lago e deixavam contagiar o diálogo pela amenidade do local.&lt;br /&gt;– Este bar está, de facto, estrategicamente bem implantado aqui!&lt;br /&gt;– Pertence a um clube desportivo, do qual sou sócia.&lt;br /&gt;– Desportivo? E qual é o desporto?&lt;br /&gt;– Ténis. Jogas?&lt;br /&gt;– Nunca experimentei, mas gostaria. Onde estão os campos?&lt;br /&gt;– Os “courts” ficam daquele lado, por trás do restaurante. Daqui a umas semanas podemos vir cá “bater umas bolas”, eu ensino-te.&lt;br /&gt;Malarte agradeceu e confessou que era de nadar que ele mais sentia saudades.&lt;br /&gt;– Também se nada aqui neste lago?&lt;br /&gt;– Os patos nadam… se quiseres experimentar, estás à vontade.&lt;br /&gt;– Só se me fizeres companhia. – Retorquiu Malarte.&lt;br /&gt;– Sei que estás a brincar mas eu era mulher para ir mesmo, não fosse este braço engessado. – E ergueu-o no ar.&lt;br /&gt;– Pois. Se não é descrição, o que te aconteceu?&lt;br /&gt;– Fracturei.&lt;br /&gt;– Se me dizes que foi a jogar ténis não aceito que me ensines.&lt;br /&gt;– Deduziste o perigo que corres, não é? Não foi ténis, foi um acidente de moto.&lt;br /&gt;– Puxa! Como foi que aconteceu?&lt;br /&gt;– Nem eu sei muito bem dizer. Eu estava a conduzir, completamente devagar, na minha mão e quando dei por mim tinha um carro a chocar contra mim que, me derrubou e, fugiu de seguida.&lt;br /&gt;– A sério!? E quando ocorreu isso?&lt;br /&gt;– Anteontem, depois de sair do “Direito &amp; Filhos” quando ia para casa.&lt;br /&gt;– Pouco depois de eu te ter pedido informações. Isso aconteceu na Avenida da Paz!!?&lt;br /&gt;– Sim, como sabes?&lt;br /&gt;– Porque eu assisti ao acidente, do terraço do meu quarto.&lt;br /&gt;Malarte explicou-lhe o que vira ao detalhe, incluindo os pormenores que poderiam ajudar a compor um testemunho. Sandrina lamentou-se que o condutor do carro tivesse desaparecido, desse modo não o poderia processar.&lt;br /&gt;– Vá lá! Quantos Ferraris Amarelos podem haver nesta cidade?&lt;br /&gt;Sandrina silenciou-se mas, intimamente sabia que Malarte tinha razão. Além que os conhecimentos do seu pai poderiam ajudar a encontrar o autor do crime e a processa-lo.&lt;br /&gt;– Sabes o que é mais engraçado, Sandrina?&lt;br /&gt;– Não. O que é?&lt;br /&gt;– É a coincidência de eu acabar de chegar a esta cidade, com um milhão de pessoas e, já te ter encontrado três vezes.&lt;br /&gt;Ela inclina a cabeça e olha Malarte com um ar de curiosidade pelas suas palavras e corrige-o.&lt;br /&gt;– Há coisas que estão destinadas a ser. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VI&lt;br /&gt;Rodrigo&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma frase sobre a qual muito seria discutível passado uma semana depois desse dia. Sandrina encontrou outra vez Malarte que, se fazia acompanhar pelo Ricardo, acabaram por jantar todos juntos e aproveitar o calor vernal da noite, conhecendo bares e discotecas espalhados por toda a cidade. A vida nocturna prolongava-se até ao raiar do sol no oceano, dava a sensação que em Marvelive toda a gente era noctívaga. Malarte aguentava bem as directas porque, em Glowsea, se habituara a passar noites a fio sem dormir enquanto se dedicava à escrita do seu livro ou, nos textos diversos que enviava a Elsa Soares. Á medida que o tempo foi passando e Malarte descobria ocupações que gostava, os textos que lhe continuava a dedicar e a enviar eram cada vez menores em número e tamanho. Os seus sentimentos mantinham-se inalteráveis, assim pensava sentir, até poderia o distanciamento atenuar o sentimento que nutria por ela mas, não poderia modifica-lo. Elsa não voltara a lhe responder desde que se viu forçada a lhe dizer que não o amava. Não havia forma de ele ter a certeza se ela recebia as cartas que lhe enviava porque o seu correio electrónico não permitia o envio da informação sobre a visualização, quer fosse lida ou não, ou nem sequer recebida porque a capacidade estava lotada ou mesmo desactivada, era impossível Malarte saber se o objectivo dos envios era cumprido. Mas essa falta de correspondência já não era tão danosa como fora outrora, no fundo do seu coração, para além do que lhe indicava todos os indícios racionais, Malarte sentia que havia um propósito naquela relação que experimentara sensações para além das normais. Algo parecia que lhe querer indicar que haveria um futuro pré-escrito onde os dois se encontrariam prontos para se amarem reciprocamente e lutarem por uma vida em conjunto.&lt;br /&gt;Ao fim do primeiro mês de permanência de Malarte na cidade das maravilhas tudo parecia correr cada vez melhor. As saídas com Sandrina eram cada vez mais regulares e, mesmo sem eles o saberem, quem os observasse diria haver no relacionamento entre os dois qualquer coisa mais do que a amizade. Ela apresentou Malarte ao seu grupo de amigos que, não era pequeno mas, muito coeso. Ricardo por sua vez também o fez. No final desse mês Malarte estava rodeado de pessoas conhecidas a quem chamava amigos. Pela primeira vez, aquando numa saída à noite estavam em grupo numa esplanada frente ao mar, Malarte apercebeu-se de quanta falta esse convívio lhe fizera toda a vida. Sem se dar conta, mais que qualquer outra coisa, o mais valioso que possuía era esse momento em que um do grupo falava sobre qualquer assunto e os outros ouviam-no e, riam e, comentavam no fim ou, davam a sua opinião mesmo que discordante. Era essa algazarra pacífica que dava sentido à sua existência e o fazia crer que, independentemente do que se passasse, poderia sempre contar com todos eles, assim como Malarte estaria disposto a ajudar quem precisasse.&lt;br /&gt;Continuava a habitar naquele décimo andar do hotel “Imperial State”. Nada faltava naquela suite de topo. Refeições requintadas, sabores que nunca havia provado. Uma variedade enorme de comida era sempre posta à sua disposição, desde o pequeno-almoço até meio da noite se quisesse. Apesar de possuir bens suficientes para se considerar rico, nunca se havia sentido como tal, pois na casa dos pais nada era desperdiçado e certamente, não se preenchiam as mesas com tanto exagero para ser desperdiçado. Nunca fez limpezas, arrumou o quarto ou se deu ao trabalho de tratar da sua roupa. O tratamento aos hóspedes daquela suite era realmente meritório de servir a realeza, porque não Malarte? Claro que todo esse luxo tinha um custo alto demais para quem não tem rendimentos e somente subsiste racionando o que tem. Portanto Malarte fizera planos de encontrar uma, ou mais, oportunidade de investimento para poder suportar os custos dessa vida. Pensou em contratar uma agência financeira especialista na gestão de aplicações de investimento, as comissões eram elevadíssimas mas as garantias eram razoáveis. Antes de tomar qualquer decisão decidiu avaliar alternativas.&lt;br /&gt;Foi por essa altura que recebeu um contacto de Ângelo Salvador. O rapaz a que poderia atribuir o mérito de primeiro amigo perguntava-lhe pelas notícias de sua vida e enviava-lhe um abraço de Glowsea, a terra onde nada de emocionante ocorria. Lendo estas palavras Malarte decidiu partilhar um pouco da emoção de Marvelive com Ângelo e telefonou-lhe. Três dias depois estavam juntos a delirar com o êxtase da noite de Marvelive e brindarem a um, mais que certo, próspero futuro para ambos. A vida é para se aproveitar cada momento, gritavam os dois já alcoolizados no paredão da doca frente ao mar.&lt;br /&gt;Amanheceu com os dois abraçados pela descontracção etílica que lhes geria o cérebro. Pareciam um casal homossexual feliz pela liberdade de se poderem abraçar. Ainda viram pessoas a olharem de lado para eles, mas as explicações berradas não eram para justificar o abraço mas sim para provocarem mais risos entre os dois. Ângelo e Malarte. Havia qualquer coisa de único naquela amizade que tinha tudo a ver com a forma instantânea com que ambos se compreendiam e complementavam.&lt;br /&gt;Num dos dias seguintes Ângelo deu algumas sugestões financeiras (bem que o podia fazer pois era um consultor financeiro muito competente) a Malarte, nomeadamente que saísse o mais rapidamente do quarto de hotel que lhe sugava dinheiro de uma forma justificada apenas para férias. Aconselhou-o a procurar um apartamento e, se pudesse, a compra-lo em vez de arrendar, visto que seria sempre uma forma de valorizar esse capital. Começaram juntos, na esplanada de um complexo desportivo, a pesquisar anúncios nos classificados do único jornal da região, o “Marvelive Post”. Depois de seleccionados alguns cujas características pareciam satisfatórias passaram às visitas. Pessoalmente, iam conhecendo os ditos e reparando que os preços eram elevadíssimos e os que não, eram mais desaconselhados que continuar a gastar dinheiro e a morar no hotel. Na esperança que alguma boa ocasião aparecesse foram conhecer moradias, algumas de luxo em zonas lindas, outras que podiam ser capa de revistas de arquitectura. Uma moradia das últimas custava mais que cinco vezes o preço médio de um apartamento e se bem que as mais-valias tentavam qualquer um, Ângelo advertiu Malarte para manter a cabeça fria e ser contido nos planos de adquirir uma casa. Outra semana acabou por passar e Ângelo teve que ir embora sem no entanto terem descoberto um imóvel adequado para comprar. Contudo Malarte manteve a procura como prioridade das suas ocupações.&lt;br /&gt;Sandrina apareceu no hotel, onde Malarte se encontrava hospedado, numa quinta-feira ao fim da tarde e Malarte recebeu-a. As novidades eram óptimas, uma equipa de investigação, a mando do pai, tinha descoberto o Ferrari amarelo que lhe embatera seis semanas antes. O dono, confrontado com provas e sabendo do testemunho que Malarte estava pronto a fazer, confessou ter fugido por se encontrar alcoolizado e propôs-se pagar uma indemnização para que o caso não viesse a publico.&lt;br /&gt;– Sabes, com um pai a dirigir um jornal, essa vedeta rapidamente via a sua imagem pública negrejada em tudo que é comunicação social.&lt;br /&gt;– O teu pai dirige um jornal? Não sabia. Qual é?&lt;br /&gt;– “Marvelive Post”. È um jornal daqui da região, é pequenino, não deves te ouvido falar.&lt;br /&gt;– A sério!? – Admirou-se Malarte. – Claro que já ouvi falar! Leio-o todos os dias. É o melhor jornal daqui, não ouço falar de outro.&lt;br /&gt;– Isso é porque é o único. Sem gabar demais o meu pai, ele é muito bom naquilo que faz, controla toda a imprensa da região. O jornal consegue ter uma posição dominante no mercado graças a ele. Está sempre a dize-lo lá em casa.&lt;br /&gt;– Fantástico. Era disso que eu precisava, aprender sobre o mundo dos negócios.&lt;br /&gt;– O meu pai havia de gostar te conhecer.&lt;br /&gt;Sandrina acabou por ficar a jantar com Malarte e combinaram para cumprirem o prometido jogo de ténis no dia seguinte. Assim foi, à hora marcada ela apareceu para o pegar. Pelo caminho ele comentou:&lt;br /&gt;– Pensei que seria hoje que trarias a tua moto.&lt;br /&gt;– Depois do acidente fiquei receosa de voltar a montar nela. E ainda me dói o braço.&lt;br /&gt;Isso foi notório durante o jogo. Sandrina praticamente só jogou com o braço esquerdo, apesar de ser destra. Mas isso ajudou a igualar o desempenho dos dois na partida. Foi um desafio tão feio de se ver que a razão valeu somente pela experiência para Malarte e pelo divertimento que ambos tiveram.&lt;br /&gt;Depois de acabarem tomaram um sumo na esplanada voltada para o lago e quando se preparavam para se levantarem um homem na casa dos sessenta e alguns anos apareceu junto à mesa.&lt;br /&gt;– Pai! – Exclamou Sandrina e abraçou-o.&lt;br /&gt;– Olá. Então foste jogar? Que tal está o teu braço?&lt;br /&gt;– Não muito bem. Mas não o esforcei.&lt;br /&gt;– Fizeste bem, não há motivos… – E olhou para Malarte.&lt;br /&gt;– Pai, apresento-te Malarte. Malarte este é o Sr. Rodrigo, o meu pai!&lt;br /&gt;Cumprimentaram-se com um aperto de mão.&lt;br /&gt;– Prazer!&lt;br /&gt;– Então é você o jovem Malarte de quem ouço falar.&lt;br /&gt;Malarte ficou embasbacado pela informação e procurou no olhar de Sandrina a resposta.&lt;br /&gt;– Você é que presenciou o acidente que a minha filha sofreu..&lt;br /&gt;– Ah, sim! Vi-o da varanda do meu quarto.&lt;br /&gt;– Ele está a morar no hotel “Imperial State”, papá.&lt;br /&gt;– Tenho um jogo combinado não posso me atrasar. Venha amanha jantar connosco lá a casa. Oito, estará bom por si?&lt;br /&gt;Malarte ficou sem saber se deveria aceitar, mas Sandrina acenava afirmativamente com a cabeça e ajudou à resposta.&lt;br /&gt;– Oito, estará perfeito!&lt;br /&gt;Ás oito em ponto Malarte estava na porta da casa do Sr. Rodrigo, levado pela mão de Sandrina. A mãe recebeu-o à porta sem qualquer formalismo. Ele entregou-lhe um ramo de flores campestres, a mãe agradeceu e entregou-o à empregada dizendo;&lt;br /&gt;– Leve-o para a cozinha.&lt;br /&gt;Sandrina puxou-o para conhecer a casa. Estava dividida entre o piso térreo, onde se encontravam as divisões sociais e o piso superior, dos dormitórios, o qual não chegou a conhecer pois, ao passarem pela biblioteca o pai de Sandrina que lá se encontrava a trabalhar interrompeu as tarefas e fez questão de os levar para a sala para lhes servir uma bebida. Malarte entregou-lhe uma garrafa de vinho.&lt;br /&gt;– Desculpe, sou um pouco leigo nessa questão dos vinhos. Tive que pedir sugestão ao senhor que me atendeu na garrafeira. É vinho do porto, espero que aprecie.&lt;br /&gt;Sr. Rodrigues olhou para o rótulo e disse;&lt;br /&gt;– Não rapaz, isto não é um vinho qualquer. Isto é porto, sim senhor, mas mais que isso, é uma Barca Velha de 1957. É uma garrafa rara. O vinho é sublime! Não precisavas de te ter metido em despesas para impressionar.&lt;br /&gt;Malarte corou perante tal reconhecimento.&lt;br /&gt;– Não foi nada.&lt;br /&gt;Conversaram durante um bocado sentados nos sofás de pele bege, até que a empregada anunciou que o jantar estava pronto a ser servido.&lt;br /&gt;– Como sempre falta o Patrício. – Censurou o Sr. Rodrigo. E ordenou à empregada. – Vá chama-lo ao quarto, Madalena.&lt;br /&gt;– Como sempre… – Apoiou Sandrina. – Patrício é o elemento da família que te falta conhecer, o meu irmão. Ele é aficionado dos computadores, nunca sai da frente do dele.&lt;br /&gt;– Tens um irmão? Não sabia.&lt;br /&gt;– Sabe, são os computadores… Transformam os jovens em… misantropos. – Referiu a mãe.&lt;br /&gt;Malarte já havia sido assim durante muito tempo, aliás, fora toda a sua adolescência e princípio da idade adulta, até decidir ir para Marvelive. Compreendia integralmente a cativaria de um mundo cerrado à sociabilização. Para evitar ouvir outra reprovação quanto as essas atitudes Malarte desviou o assunto para a primeira coisa em que os olhos se colocaram. Uma jarra que se encontrava num aparador ao centro da parede de fundo. Levantou-se e dirigiu-se para a analisar de perto.&lt;br /&gt;– Isto é um vaso de cerâmica chinesa? Que bonito. É da dinastia Qing, certo? Os meus pais tinham um igual, a minha mãe costumava guardar os chocolates lá dentro.&lt;br /&gt;O comentário causou um leve embaraço para todos, se bem que Malarte não tivesse conhecimento do motivo. Aquele vaso servia para guardar os restos mortais do pai do Sr. Rodrigo. A mãe de Sandrina quis mudar de assunto mas o pai sobrepôs a continuidade.&lt;br /&gt;– Na verdade é da dinastia Ming. De facto a utilização do esmalte ainda não era muito comum, nesse período a louça azul e branca estava no seu expoente. Mas é natural a confusão pois essa peça está datada do séc. XVII. E como sabes, a disnastia Ming terminou em 1644.&lt;br /&gt;Malarte obviamente não sabia. Era novo e não podia ter conhecimento sobre todas as questões que pudessem ser abordadas, principalmente para precisar datas. Mas ainda assim a sua cultura geral era fascinante se tivéssemos em conta a sua idade e o facto de ter vivido em clausura durante tantos anos.&lt;br /&gt;Raquel, a mãe de Sandrina quis saber sobre os pais de Malarte. Ele ficou hesitante sobre o que dizer. Antes que dissesse qualquer palavra entrou na sala o irmão de Sandrina. Tinha os olhos profundos e as olheiras tão escuras que se assimilava a uma caveira. Era ligeiramente mais novo que Sandrina, talvez estivesse na casa dos dezasseis, mas mais alto que Malarte e mais largo que os dois juntos. Malarte deu um passo em frente e estendeu o braço para lhe dar um aperto de mão mas, Patrício puxou a cadeira para trás e sentou-se de imediato à mesa. O pai produziu um som de modo a tentar ser discreto, certamente que o filho conhecia-lhe o rigor porque se levantou de imediato e foi dar “cinco” a Malarte. Este ficou a olhar para a mão espalmada sentindo-a como se tivesse sido esmurrada por um pugilista.&lt;br /&gt;O jantar correu sem quaisquer incidente, exceptuando o facto de Malarte não ter as mesmas regras de etiqueta que a família de Sandrina. Tentou imita-los o melhor que sabia e a descrição ajudou a dissimular o mau jeito. Entretanto era o pai de Sandrina que dominava as discussões. Malarte incitava-o a falar sobre os seus negócios para evitar que a conversa vertesse para a sua vida pessoal, não gostaria de falar sobre os seus pais.&lt;br /&gt;– …mas nem sempre as coisas foram assim fáceis, sabes? Desde 1910 o meu pai trabalhava para os Nobre simultaneamente para poder sustentar a tipografia. Já ouviste falar dos Nobre, certo?! – E divagou como em todas as conversas para transmitir a sua opinião sobre os Nobre, ao fim de doze minutos retomou a conversa que iniciara. – É por isso que os Nobre não passaram de uns avarentos, uns chulos! – Excedeu-se pelo à vontade que estava a ter com Malarte.&lt;br /&gt;– Rodrigo! – Chamou a atenção a mãe ao mesmo tempo que Sandrina dizia pai. Malarte e Sandrina olharam-se em jeito de gozo com a situação. O pai continuava a querer exibir as suas razões. Patrício comia sem cessar e sem prestar atenção a coisa alguma.&lt;br /&gt;– Fui eu que, aos catorze anos peguei na empresa do meu pai e a transformei no jornal mais lido da região.&lt;br /&gt;– Admirável Sr. … – Elogiou honestamente Malarte.&lt;br /&gt;– E sabes como fiz isso?&lt;br /&gt;Malarte teve vontade de lhe responder que não mas que teria a certeza que o Sr. Rodrigo lhe ia contar. Com toda a razão, a conversa prolongou-se pela noite fora. Levantaram-se todos da mesa e foram tomar café para o sofá, todos exceptuando Patrício que correu para o seu quarto. Mas para além do efeito das bebidas que Malarte tomava, quase obrigado pelo pai de Sandrina, o momento não lhe causava desdém. Muito pelo contrário, encontrou na história de Rodrigo um exemplo que lhe serviria de futuro. Sr. Rodrigo começara na comunicação social sem facilidades apesar do pai ser dono de uma tipografia que imprimia propaganda sindical. Era o pai de Rodrigo o editor do prospecto e nenhum artigo era publicado se não estivesse dentro do padrão crítico às principais entidades patronais da região, nomeadamente a família Nobre. Durante a “febre do cinema” começaram a chegar à cidade actores e actrizes que eram na altura considerados as estrelas. Toda a gente tinha curiosidade em os ver ou, saber um pouco mais sobre eles. Rodrigo aproveitou e começou a forçar meios de pedir aos actores breves minutos de atenção para responderem a questões. Pagou ao pai, com o dinheiro que ganhou a trabalhar na recepção de um hotel, o custo de uma edição de autor com as essas entrevistas e fotos das vedetas. O sucesso foi tão imediato que, passados apenas uns meses era o pai que trabalhava para o jornal de Rodrigo. Eram impressos milhares de exemplares por tiragem e distribuídos por todo o país. Por volta dos anos setenta, as estrelas de cinema já não produziam um negócio assim tão volumoso e a direcção do jornal, composta por pai e filho, decidiu restringir-se a uma tiragem modesta para ser distribuída somente em Marvelive.&lt;br /&gt;– Em 1986 o meu pai faleceu e eu assumi o controlo sozinho do jornal. – Contava Sr. Rodrigo com algum pesar. – Com vista a uma sólida expansão vendi as cotas do meu pai e reforcei assim o capital. Hoje voltamos a ser o maior jornal da região! – Dizia-o com orgulho. – E em breve, se Deus quiser, será o maior jornal do país.&lt;br /&gt;– Isso é fabuloso! – Intercalava Malarte no «quase» monologo.&lt;br /&gt;– …Mas isso é outra história que, vocês não quererão ouvir. – Preparava-se para levantar quando Malarte proferiu.&lt;br /&gt;– Sabe Sr. Rodrigo, gostei muito das suas memória, da determinação que teve para assumir os seus textos e lutar pelo que acreditava…&lt;br /&gt;Rodrigo reteve-se.&lt;br /&gt;– Eu próprio também escrevo.&lt;br /&gt;– Ah bom?! E para onde escreves?&lt;br /&gt;– Escrevo para mim. Tenho-o feito desde que me lembro. É o meu maior interesse, por isso vim estudar para a “José Sierin”.&lt;br /&gt;– Hoje em dia escrever é uma tarefa difícil. Estão todos a lutar por uma rubrica sua, o público só quer ler sensacionalismo! Por isso se vendem todos a assuntos sem interesse nenhum.&lt;br /&gt;– Talvez o Sr. Rodrigues, que tem juízo profissional sobre a matéria, possa me dar uma opinião sobre os meus textos.&lt;br /&gt;– Sem dúvida rapaz. Entrega-mos. – Ergueu-se do sofá e despediu-se – Bem, boa noite. Já é tarde e tenho que dormir. Obrigado mais uma vez pela Barca Velha e pela visita.&lt;br /&gt;Malarte foi acompanhado à porta de entrada, despediu-se dos pais e ficou com a Sandrina a conversar por mais um bocado.&lt;br /&gt;Sem palavras Sandrina franziu as sobrancelhas como perguntando o quanto horrível fora o serão para Malarte.&lt;br /&gt;– Foi óptima a noite!&lt;br /&gt;– Não mintas. A minha família é doida.&lt;br /&gt;Malarte gostaria de dizer que era igual a todas mas as memórias que possuía da sua eram tão remotas que não serviam de base de comparação. Ao dizerem adeus Sandrina tomou a iniciativa de o beijar no rosto carinhosamente. Ele ficou atónito e só reagiu com o levantar da mão em despedimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VII&lt;br /&gt;Bonança&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;As aulas haviam começado há alguns meses e Malarte conseguira surpreender tudo e todos desde a sua entrada triunfal na escola, num carro completamente novo, um Dodge Viper. A sua auto-confiança tinha aumentado tão abismalmente que tomara a decisão de comprar o carro sem consultar ninguém. E não fora a única progressão, aliás tanto tempo depois o que não faltavam eram novidades. Decidiu adquirir um lote de terreno frente ao mar e a única pessoa a quem informou da sua decisão foi a Malarte a quem contou todos os detalhes do negócio. No local mais nobre da cidade existia um complexo habitacional. Fora outrora o local onde os Nobre construíram o primeiro retiro turístico e que, depois da demolição, dera origem a esses lotes com localização privilegiada. Entre os poucos disponíveis escolheu o melhor (e também mais caro). Projectou em linhas grossas a casa que lhe serviria, com piscina exterior e interior, sauna, ginásio, cinco quartos e uma gigantesca biblioteca entre outras divisões de menor relevo. Entregou o projecto a uma equipa de arquitectos que lhe aprovaram a construção e estimaram dois anos para a concluir, se não houvesse rotura de dinheiro. Ângelo praticamente aplaudiu a gestão financeira que Malarte estava a fazer por sua própria iniciativa.&lt;br /&gt;Esse congratulou-se pelas opções acertadas que estava a fazer, sentia isso e a vida havia de lhe dar os dividendos. Para festejar, em vez de se presentear a ele, convidou Sandrina para um encontro romântico e ofereceu-lhe uma moto nova. Uma CBR 1000. Ela não resistiu ao aspecto veloz da máquina ainda parada. Montou-a e levou Malarte à pendura a sentir a adrenalina do asfalto.&lt;br /&gt;Mas, com semelhante gastos qualquer fortuna evaporaria rapidamente. Malarte não teve outro remédio senão aceitar o conselho de Ângelo Salvador e vender a casa de seus pais. Não fora fácil arranjar comprador, contudo, uma redução significativa aliciou uma empresa hoteleira a adquirir a propriedade para a transformar num retiro turístico. Malarte lamentou não ter se lembrado dessa ideia porque começava a sentir a necessidade urgente de investir em algum negócio rentável.&lt;br /&gt;O custo da vida que levava era elevadíssimo mas, agora habituado a tal conforto, era difícil regredir. Após ter adquirido o Dodge Viper foi directamente à loja onde comprara as suas roupas e voltou a estacionar no lugar em frente à entrada, supostamente reservado a cargas e descargas. O empregado que lhe abriu a porta não o reconheceu mas, Malarte sim e lembrava-se do seu nome:&lt;br /&gt;– Carlos, se a sua chefe implicar… não arranje sarilhos para si e estacione-me o carro.&lt;br /&gt;– Sim, senhor! – Respondeu com total obediência.&lt;br /&gt;– Nem um risco! – Advertiu-o em voz mais alta.&lt;br /&gt;A gerente aproximou-se nesse instante e referiu:&lt;br /&gt;– Não se preocupe, o carro estará seguro naquele lugar.&lt;br /&gt;Ao fim de três anos de permanência em Marvelive, já habitava na sua nova casa. Havia transportado para lá todas as relíquias que tinha mantido em Glowsea a ganharem pó. Com ela preencheu os espaços vazios impersonalizados pelos decoradores que escolheram os interiores da nova habitação.&lt;br /&gt;Nessa altura, Malarte era já uma das figuras mais conhecidas em Marvelive. De facto, tanto nos comércios, como na escola ou em qualquer outro lugar, Malarte ganhara a completa admiração dos outros. Sobretudo tinham respeito pelo que proferia ou pelo que fazia.&lt;br /&gt;Na escola, ele e Sandrina faziam o par perfeito. Ela era a rapariga mais bonita da escola, ele o mais inteligente. Ambos eram ricos, populares e até simpáticos. Malarte costumava organizar raves ou outras festas, onde quer que lhe viesse à cabeça e convidar toda a gente que encontrava. Portanto, para quem desejasse ser incluído nesses brutais eventos, era conveniente aproximar-se o mais possível de Malarte e da namorada. Sim, Sandrina era, aos olhos de todos, a sua namorada, se bem que nunca fora admitido por ele e na verdade ele não a sentia como tal. Inclusive conseguiu que o Patrício, irmão de Sandrina, começasse a viver mais para além da sua casa. Apresentou-o a Ricardo certo dia e quando Malarte deu por eles, passavam a maior parte das noites no “Apolo Club”, a discoteca mais badalada da região e uma das melhores do país. Malarte nunca teve oportunidade de lá ir porque tinha a sua agenda permanentemente preenchida. Até chegava a receber convites enviados por entremeio de Patrício, directamente do gerente.&lt;br /&gt;Mas o clímax foi atingido quando jantava com o Sr. Rodrigo num restaurante situado no topo de um hotel. Rodrigo passou toda a noite a falar da empresa e do passo definitivo que esta estava prestes a dar para o sucesso planeado. A empresa detentora do jornal iria se tornar sociedade anónima, permitindo assim o ingresso de novos sócios que pudessem demonstrar uma forte mais valia para esta. Malarte ouviu o propósito da revelação.&lt;br /&gt;– …sabes Malarte, eu não cheguei a comentar aqueles textos que me enviaste há dois anos…&lt;br /&gt;– Três. – Corrigiu Malarte.&lt;br /&gt;Rodrigo continuou.&lt;br /&gt;– Mas acho que os textos são sublimes! A tua escrita é única… – e por meia hora divagou, como usual, para explicar porque apreciava tanto a sua literatura. – Bem. Mas o que te quero propor, a oferta que tenho pelo relacionamento que tens tido com a minha família, pelo dom que tens para as letras e por estares quase a terminar o curso de comunicação social é… dar-te a possibilidade de seres um desses sócios do “Marvelive Post”.&lt;br /&gt;A notícia caiu de rajada em Malarte, ele não estava realmente à espera de uma proposta assim. Tornar-se sócio de um jornal tão forte e, em vias de expansão, como “Marvelive Post” era a melhor noticia que poderia ter em todo o ano.&lt;br /&gt;– Como sócio, poderás publicar os artigos que quiseres sem restrições. Faz parte dos estatutos da empresa.&lt;br /&gt;Mais nada havia a dizer. Num mês os advogados trataram de formalizar a questão e saiu nas bancas a primeira das novas edições do jornal com distribuição nacional. Nesse primeiro número do renovado jornal, saiu a primeira publicação assinada por Malarte.&lt;br /&gt;Nessa altura Malarte não escrevia com a mesma frequência que o fizera dias longínquos, então aproveitava para escoar os incontáveis textos que tinha acumulado desde criança. Todos os dias um novo texto via a luz da edição. Às segundas-feiras saia um poema, ás terças uma prosa, ás quartas um bocado de uma ficção, ás quintas temas soltos, ás sextas publicava-se fracções de uma história de terror que, coleccionando daria no final a obra completa, ao sábado um romance e, por fim, ao domingo era o dia da crónica.&lt;br /&gt;Ao fim de seis meses os resultados das vendas do jornal estavam acima das expectativas. Em muito contribuíam os textos de Malarte que, deixavam as pessoas sonhar e provocavam furor de comentários por todos os lados. Toda a gente na redacção se congratulava com a resposta do público.&lt;br /&gt;Malarte vivia a plenitude da sua vida. Nada mais poderia desejar. Contudo não voltara a escrever. A administração do jornal, o curso que ainda não concluíra e os eventos sociais de que não abdicava, roubavam-lhe todo o tempo e davam-lhe a razão suficiente para que ele não o fizesse. Mas não era a mais pura das verdades, o que faltava por essa época a Malarte, sem ele saber, era a motivação para o fazer. Desde que decidira esquecer Elsa Soares fora como perder a sua musa. Poderia haver interesse ou necessidade de escrever o que quer que fosse mas, somente, para outras finalidades. Faze-lo com o dom de encantar o leitor já não conseguia, por isso enganava-se a si mesmo pensando que tinha coisas mais preciosas com que se ocupar. Essa frustração ia tomando, gradualmente, conta de si, sem que ele se desse conta como.&lt;br /&gt;Sandrina convidou-se para ir jantar à casa de Malarte. Desde há dois meses que Ângelo Salvador residia com ele, provisoriamente. Foi ideia tida pelo próprio Malarte quando soube que Ângelo tivera uma proposta irrecusável para trabalhar em Marvelive no seu ramo. Ambos se continuavam a dar como irmãos. Entendiam-se tão bem que, quando Ângelo soube que Sandrina ia lá a casa nesse dia, ele referiu ter marcado um encontro com uma pessoa, o qual certamente se ia estender até ao dia seguinte. Foi somente para permitir privacidade a Malarte e Sandrina.&lt;br /&gt;Malarte preparou o jantar com o rigor e exuberância que dava a todas as festas a que se habituara a fazer. Um violinista acompanhou todo o jantar, tocando músicas românticas. A mesa havia sido colocada no exterior, junto à piscina, cujas águas iluminadas reflectiam uma claridade suave, e, frente ao mar, cujo som harmonizava com o do violino e cujas águas estavam visíveis por a ajuda de cinco enormes holofotes colocados estrategicamente na areia da praia.&lt;br /&gt;Não corria uma brisa de ar e a noite estava quente. Sandrina usava um vestido decotado que expunha ligeiramente o seu busto generoso. Malarte vestia umas calças de fato que lhe favoreciam o rabo redondo e firme e, uma camisa desapertada até se poder antever os músculos peitorais.&lt;br /&gt;Uma mulher e dois homens, vestidos de havaianos, traziam as iguarias mais variadas e esteticamente belas que Sandrina já havia visto. Ou seria do ar romântico? O condimento e tempero deixavam na boca suaves paladares de especiarias que, por sua vez convidavam a degustar o delicado vinho tinto. Sandrina deixou-se levar pelo convite da ocasião para falar.&lt;br /&gt;– Malarte, eu vinha aqui, totalmente aborrecida porque que queria ter disposição para falar contigo coisas que não me deixam à vontade.&lt;br /&gt;Malarte estava convencido de saber do que se tratava. Mas deixou-a continuar.&lt;br /&gt;– É que… o problema, é que… acho que esta relação, não me satisfaz.&lt;br /&gt;Ele pousou o copo sem temer o resto.&lt;br /&gt;– O que achas que está mal na nossa relação?&lt;br /&gt;– Não está nada e… está tudo. Malarte, nós namoramos ou, sei lá… temos esta relação que não entendo ao certo o que é… e nunca, nem por uma vez fizemos amor. Fugiste sempre e tentas canalizar sempre a conversa para outro rumo.&lt;br /&gt;Malarte, por sua vez, compreendia perfeitamente o que Sandrina lhe dizia. O problema não era ela, não era que ele não gostasse de mulheres ou que, não tivesse tantas vezes quanto ela vontade de sucumbir ao desejo carnal. O problema era outro que ele ainda não tivera capacidade de ultrapassar. Tinha ultrapassado, de longe, o máximo da média, do fim da idade de virgindade dos homens. Isso não significava nada mas por outro lado até que sim. Era um homem realizado em mais do que o que se poderia desejar àquela idade mas, por qualquer razão não conseguia se realizar na relação, consecutivamente nem fazer ninguém se sentir realizado. Já esperara tempo demais, era hora de dar o passo em frente na sua vida, completar o que lhe faltava.&lt;br /&gt;Fez sinal aos empregados para que se retirassem e sem perder tempo, arremessou a mesa, com tudo que tinha em cima, para o lado. Pegou-a ao colo, com as pernas a enclausurarem-lhe a cinta dele, encostou-a à porta de vidro da sala. Ela sucumbiu à vontade de gemer para libertar a ânsia de tanto tempo e ele amarrou firmemente as suas nádegas com as duas mãos. Ela trincou-lhe a orelha. E ele arrebentou-lhe o fio dental. Sem perda de emoção acalmaram para se olharem nos olhos.&lt;br /&gt;De repente a porta principal de casa abriu-se e entrou o Patrício e o Ricardo. Sandrina e Malarte pararam abruptamente. Ela foi direita ao irmão e perguntou-lhe o que estavam a fazer ali.&lt;br /&gt;– Disseste que vinhas para cá hoje, pensei que havia festa.&lt;br /&gt;– Vai imediatamente embora. – Ordenou-lhe. – E tu também!&lt;br /&gt;– Calma. – Desculpou-se o Ricardo. – Foi um mal entendido! – E entregou-lhe para as mãos duas garrafas que trouxera.&lt;br /&gt;Malarte aproximou-se. Os dois disseram-lhe olá e pediram desculpas pelo inconveniente. Já estavam de saída.&lt;br /&gt;– Não sei é como a gente vai dizer à malta que está a chegar que não há festa afinal.&lt;br /&gt;– Que malta? Quem vem aí? – Perguntou Malarte.&lt;br /&gt;– Sei lá! Os do costume. – E eram tantos que seriam impossível saber na totalidade quem eram. Começou nesse momento o parque a ficar cheio de viaturas e ele viu-as a aproximarem-se. Olhou para Sandrina que suspirou fortemente e disse-lhe à parte.&lt;br /&gt;– Sandrina, a gente tem todo o tempo que quiser. Eu quero, tanto quanto tu, isto… que isto seja perfeito. De qualquer modo hoje já estaria estragado.&lt;br /&gt;– Sabes tão bem quanto eu que amanha será sempre amanha e, nunca chegará o dia. Queres algo bonito? Fazemo-lo amanha mas, hoje durmo cá em casa e espero que estejas comigo!&lt;br /&gt;Ele deu-lhe um beijo na testa em concordância e disse:&lt;br /&gt;– Agora sê tu própria e vamos receber as visitas.&lt;br /&gt;Foi fechar a porta que dava acesso ao primeiro piso, o piso dos quartos. E dois pares de minutos depois a festa instalara-se. Ninguém perdeu tempo com formalidades, de tão habituados que estavam às festas de Malarte. Alguns chegavam, tiravam a roupa e saltavam para a piscina e outros distribuíam as garrafas que traziam pela sala. Ligaram a música e o ambiente estava por inteiro, sem necessidade de quebrar qualquer gelo entre as pessoas. Alguém perguntou se havia comida e Malarte pediu que estivessem à vontade para ver na cozinha.&lt;br /&gt;A festa foi de arromba. Sem dúvida, a maior e mais animada festa que pode ser feita. Sem privações de nada. Tudo desde fogueiras na praia até a um DJ famoso que lá foi colocar música, tudo o quanto se pode imaginar constituinte de uma celebração memorável; estava lá. Malarte perdeu a sobriedade para controlar o panorama quando se apercebeu que não havia nada que pudesse ser mais perfeito. Ainda conseguiu deliberar, ainda que sobre o efeito de muito álcool, sobre consumir um tipo de droga qualquer que Ricardo e Patrício insistiram que ele tomasse.&lt;br /&gt;– Vais te foder todo!&lt;br /&gt;– Boi de merda!&lt;br /&gt;Foi as últimas palavras que ouviu mas que, nunca mais na vida haveria de recordar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;VIII&lt;br /&gt;Declínio&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Rompeu o sol depois da madrugada húmida e gelada. Começou um novo dia. O aroma das flores perfumadas, lírios, rosas, malmequeres e tulipas dissolveu lentamente o cheiro do sal, das algas, do mar que impregnara o ar da noite. O ruído constante do movimento das ondas a galgarem o extenso areal despertou-o para a desconfortável realidade do sono passado ao relento. Acordou a cuspir areia, que decerto alguma já engolira. O mundo em movimento. O horizonte de linha recta contorcia-se na mesma irregularidade do mundo em seu redor. A constância das formas foi aclarada pelo costume à ressaca. Debilmente colocou-se de pé e em desequilíbrio rumou à casa à sua frente. Necessitava de ingerir líquidos, a sua boca estava seca. A sua língua áspera necessitava de algo adocicado. O hálito putrefacto só morreria depois de o seu estômago receber o alimento que tanto reclamava.&lt;br /&gt;Havia garrafas vazias e muitas peças de roupa entre os infindáveis despejos em volta da piscina. As cadeiras estavam deitadas no chão e as que não, estavam dentro de água. Flutuavam garrafas vazias, copos de plástico, peças de roupa e uma casota de cão. Mas no fundo da piscina reconheceu cadeiras e mesas de jardim, sapatos, garrafas e mais garrafas, um relógio de parede, uma bicicleta e até um sofá. “Porra! Quem deitou para a piscina o sofá?! Porra!”. Mas a consternação assomou-se à sanha, apenas contida pela fraqueza, quando viu um objecto de valor pessoal quebrado em partes, a flutuar nas cáusticas águas. “O cofre do tempo, não! Merda… Filhos da puta!”. Ficou de tal forma desorientado que entrou em casa pela porta da sala sem reparar que uma das portas de vidro estava quebrada. Dirigiu-se à cozinha ignorando o holocausto completo por onde passava. O candeeiro estava suspenso pelos fios eléctricos, o chão cheio de lixo, o quadro de óleo pendurado na parede do corredor estava redesenhado com bigodes sobre a imagem da airosa mulher que dantes continha, um colchão estendia-se pelas escadas que davam ao primeiro piso. A todos os passos os pés se colavam ao chão engordurado pela bebida evolada. Abriu o frigorifico forçando a porta a desviar a carne descongelada à sua frente. Pegou no pacote de leite, estava vazio. A água cheirava a álcool, o sumo também. Tudo cheirava a álcool, aliás toda a casa. Não fosse a bebedeira que o deixou nesse estado saberia o que beber apenas pelo odor. Pegou na garrafa de sumo para molhar os lábios, era urina de certeza. “Ninguém faria isso!” – Disse-o a si mesmo. Mas relembrou o sofá na piscina e decidiu desistir do sumo. Entornou-o pelo chão sem sentir o mínimo pesar pelo insignificante agravamento do caótico estado da casa. Regressou ao corredor que dava acesso ao piso dos quartos, só aí reparou no colchão e perguntou-se o que ele fazia ali se a porta do piso superior fora trancada à chave na noite anterior. Correu as escadas até ao cimo e deparou-se com a ausência dessa, arrancada pelos aros da carpintaria. Não podia ser pior, nem os quartos escaparam à violência da festividade. Abriu o primeiro quarto. O guarda-fatos estava no chão e a roupa deveria ser a que ele viu estendida pelo exterior da casa. O segundo quarto não tinha cama – pelo menos sabia onde se encontrava o colchão. Estremeceu a imaginar o estado do terceiro quarto, a suite. Repleta por cristais finos, cedas e antigas porcelanas da china. Abriu de rajada a porta e nem conseguiu assimilar que tudo estava normal. Acendeu a luz para ver melhor. E ergueram-se na cama a sua pseudo-namorada e o liliputiano do seu amigo, Ângelo Salvador. Ambos nus. Nem cobriram o corpo perante a sua aparição.&lt;br /&gt;– Sandrina!!? – Exaltou amarguradamente.&lt;br /&gt;– Apaga a puta da luz! – Respondeu Ângelo sem se mover da cama.&lt;br /&gt;Então Malate pegou num jarro para o partir em cima da cabeça do tipo estendido na cama. Nem a permanência do álcool nas suas veias explica como ele conseguiu tropeçar antes de o fazer e como caiu no chão fazendo o jarro de porcelana lhe abrir a cabeça e o deixar inconsciente.&lt;br /&gt;Acordou com o sabor de sangue na boca. Meteu a mão à cabeça e sentiu o cabelo aglutinado pelo coagulado sanguíneo que escorreu quase sem parar. Na porta do quarto de banho apareceram Sandrina e o traiçoeiro amigo, beijaram-se ferozmente e saíram sem lhe darem a mínima das atenções. Exclamou do chão: “Sandrina!? Porquê?”. Ela olhou para trás e não respondeu, foi-se embora simplesmente. A custo ergueu-se e espreitou na janela ambos montarem a CBR 1000 e desaparecerem num estrondoso “BRRRRUMM”.&lt;br /&gt;Do outro lado da colina onde se situava a casa onde se encontrava, conseguiam-se distinguir os seus gritos de raiva entremeados com as suplicias berrantes de dor.&lt;br /&gt;Durante uma fiada de tempo que não parecia ter ponta terminal, quebrou os materiais que haviam permanecido a salvo da noitada, num pranto tão ruidoso que só seria comparável com a trovoada crepitante dos contos esotéricos da Transilvania. Começou no quarto, atravessou todo o andar superior e desceu ao rés-do-chão desfazendo a cólera de si mesmo nos objectos que se transformavam em migalhas à medida que lhes tocava. Lançava-se sobre as paredes, amofinando a dor sentida no escorrer das perturbações lacrimejantes e mutilava-se desta forma, não tanto com o dano físico mas pelo perecível ânimo anímico.&lt;br /&gt;Entrou na sala arrastando os pés entre a imundície preada ao soalho de madeira maciça envernizada, truncado da sua consciência, baqueou contra o divã. Da memória inerte tentou desesperadamente recordar os acontecimentos que orientaram o tumulto da festa. Não se lembrava sequer do seu próprio nome. Com o olhar inactivo e o raciocínio demasiadamente lento para se consciencializar do que via, ficou a olhar para um relógio que se encontrava no chão. Ao fim de duas horas reparou nele, pegou-o e reconheceu ser a prenda que recebera dos seus pais, no natal dos seus treze anos de idade. Voltou-o ao avesso e leu a inscrição:&lt;br /&gt;“Para o melhor filho do mundo,&lt;br /&gt;Ângelo Salvador Castanheiro Boença de Malarte”.&lt;br /&gt;Esquizofrenia. Foi-lhe diagnosticado a dissociação psíquica um mês mais tarde. Ângelo Salvador, o seu maior amigo afinal não existia fisicamente mas, só nesse orbe imaginário em que vivia. O seu mundo era tomado por fantasias desnaturais que, o cobriam formando um casulo que o impedia das agressividades exteriores.&lt;br /&gt;Sandrina não lhe falava desde o escombro na casa de Malarte. Tudo o que ela vira fora Malarte a avançar sobre ela com um jarro na mão, a cair e a desmaiar. Foi intolerável a tentativa de agressão, ainda por cima, depois lhe ter faltado tantas vezes com o amor que deveria corresponder. Alterara o número pessoal somente para não receber chamadas dele. E pedira ao pai que contratasse um segurança para impedir que ele entrasse na propriedade. Malarte nunca foi bloqueado por tentar ir a casa de Sandrina, isto porque, a sua falta de confiança estava tão baixa que, nem saberia como se justificar. Não teve coragem de lá ir. De um momento para o outro a vida de Malarte levaria um arrombo fatal. E já começara, a decadência, pelo aspecto psicológico. Custava-lhe acreditar nas palavras do psiquiatra que o acompanhava. Quantas mais provas Malarte tentava arranjar para demonstrar a existência do seu amigo imaginário, mais razão dava ao seu médico. Todas as ideias na sua cabeça contorciam-se de modo a inventar mais fantasias que justificassem o falhanço das provas que nunca se comprovavam. Por vezes todo o mundo estava envolto numa cabala para o confundir mais ainda. Tornava-se difícil Malarte saber em quem confiar, porque todos haviam contribuído para o seu estado depressivo.&lt;br /&gt;Quando por vezes Malarte entendia a sua posição e admitia poder estar a sofrer de problemas cerebrais que afectavam a sua percepção do mundo, até fazia um esforço por ignorar as fantasias. Mas elas eram tão reais que, o que se tornava complicado era distinguir a realidade da ficção. O homem que ia à sua casa entregar as compras que ele fazia pela Internet, era simpático, talvez em demasia. Talvez fosse outra alucinação da sua cabeça ou, talvez, fosse alguém que estivesse a estudar o seu comportamento para dizer “aos outros” e assim saber como estaria a resultar a experiência. Talvez então, “eles” não necessitassem de enviar um homem pessoalmente porque, tinham espalhado câmaras de vídeo e sensores pela casa e implantado chips na sua cabeça. Quanto mais Malarte pensava no seu problema mais confuso tudo se tornava e mais o seu estado se agravava. O médico aconselhava-o a tomar a medicação, repousar bastante e esforçar-se por não pensar nisso.&lt;br /&gt;– Procure pequenos assuntos rotineiros para ocupar a sua mente.&lt;br /&gt;Nem que augurado por alguém, num instante arranjou mais com que se preocupar. O advogado da empresa da qual era sócio reuniu-se com ele a mando de outro sócio que só vira uma vez, no dia da escritura da empresa. As notícias eram, mais uma vez, catastróficas. O jornal tinha sido processado por monopolizar o mercado, por mais de trinta anos. As culpas eram da direcção, na altura do pai e do avô de Sandrina mas, a responsabilidade havia sido assumida por todos os novos sócios. Tal como dizia na escritura pública eram todos solidários pelas dívidas e prejuízos da empresa. Nessa altura, dividas não existiam mas, o processo estava prestes a começar.&lt;br /&gt;– O Sr. Rodrigo ocultou saber que, o processo iria ser levado a tribunal. – Acusou o outro sócio.&lt;br /&gt;Mas nada poderia ser feito, não havia provas dessa acusação e sem elas as responsabilidades poderiam ser pedidas aos próprios lesados na sequência de um processo por difamação com que, certamente, Rodrigo não hesitaria em avançar.&lt;br /&gt;A frustração de Malarte era tal que, os incidentes públicos sujaram a sua imagem por toda a cidade. Enquanto diabo piscou um olho, diziam muitos, Malarte converteu a sua popularidade para o pior sentido. O respeito que haviam lhe tido revelou-se, como na verdade talvez sempre fora, ardil hipocrisia oportunista. Sentindo que Malarte nunca recuperaria do buraco em que se estava a meter, toda a gente confessava o que antes dizia em voz baixa, Malarte é um falhado. A inveja que, antes estava encoberta pelo cinismo, agora exibia-se como troféu de se ser alguém na vida, comprovado somente, pelo desespero de outra pessoa.&lt;br /&gt;O desespero deu lugar a outro Malarte, impossível de encontrar semelhança com o anterior. Ao fim de mais seis meses começara a perder na luta contra a doença. Sozinho no mundo, ninguém parecia o recordar. A cidade foi capaz de mostrar a maior crueldade de que o Ser humano é capaz, pela simples forma do esquecimento. O reitor da escola, pressentindo os problemas expulsou-o com base não na falta de pagamento das propinas mas, pelo abuso excessivo com que tinha usado o parque de estacionamento reservado a celebridades durante anos. Foi como se nunca ele tivesse existido, talvez assim ninguém sofresse com ele. Certa noite Malarte vagueava pelas avenida da cidade, para tentar arejar as ideias, quando passou junto de uma esplanada onde estavam alguns dos “amigos” que se haviam colado diversas vezes às festas que ele dera. Um ou dois cumprimentaram-no com indiferença, como se estivesse tudo normal mas ele nunca tivesse sido alguém a quem deram tanta graxa. Malarte, ignorado, continuou o seu caminho. À medida que se distanciava ouvia-o a chamarem-lhe nomes impróprios, mas isso poderia ser da esquizofrenia. O mais duro foi as gargalhadas e risos que, em câmara lenta, o retomaram para a sensação que chegara a sentir de ter amigos e ser feliz, por isso, sem mais razão.&lt;br /&gt;Um dia de lucidez e angústia não conseguiu conter a voltar de falar com Sandrina foi encontrá-la no clube de ténis. O pai dela, ao vê-lo quase que o agrediu, sem porquê. Os amigos dele ainda o ajudaram e Malarte só saiu vivo do encontro porque Sandrina teve clemência e aceitou falar com ele a sós.&lt;br /&gt;De coração aberto, mostrando todas as fragilidades e defeitos de si mesmo, Malarte pediu que ela não o desamparasse.&lt;br /&gt;– Por favor Sandrina, agora é que eu mais preciso de ti! – Mas as suas súplicas foram entendidas de uma forma diferente. Sandrina pensou com a razão e essa dizia-lhe que Malarte não era a pessoa que ela julgara amar. Ele retorqui que ela nunca lhe havia dito que sentia assim por ele e que, se o tivesse feito talvez as coisas fossem diferentes. Talvez ele também a amasse. Naquele momento, talvez a amasse.&lt;br /&gt;– Malarte, tu estás doente! – Como quem diz “É preciso que te cures para amares!”.&lt;br /&gt;E voltou-lhe as costas e foi para junto do pai que ainda lhe ordenou que nunca mais lá pusesse os pés.&lt;br /&gt;Outro ano mais tarde e o caso da empresa estava arrumado. “Marvelive Post” faliu na tentativa de pagar indemnizações. Os lesados foram tantos e os valores tão altos que, não houve escapatória à maior ruptura financeira que o país assistiu em vários anos. As amizades que Rodrigo e os outros sócios pensavam possuir em débito, por favores prestados, não valeram para nada senão para se humilharem na tentativa de cobrar favores.&lt;br /&gt;Rodrigo não ficou tão arruinado como Malarte. Possuía outra empresa pronta a laborar em nome dos filhos. E o que lhe vieram buscar de património pessoal transformou-se em cabeçalho nos jornais de todo o país; “NADA”. Nada era tudo que a justiça conseguir o fazer pagar, apesar da sua culpa no cartório, porque de facto ele era um homem esperto e perspicaz nas artimanhas da lei. O assunto acabou por esmorecer na comunicação social e, em pouco tempo, ele voltou a trabalhar com mais sucesso que no período anterior à falência porque ele tinha um renome consolidado, cujo escândalo afinal só contribuiu para os seus quinze minutos de fama.&lt;br /&gt;No mundo obscuro a podridão esconde-se nos falsos homens sem honra, para os quais a palavra é um mero utensílio para ludibriar os mais correctos.&lt;br /&gt;Os outros sócios ficaram lesados sim mas, o dano, foi o custo da vacinação para o mundo dos negócios. Malarte pagou como estes últimos, em termos financeiros mas, saiu-lhe mais cara a lição porque perdeu o pouco que julgava ter. Os conselhos que o seu imaginário amigo lhe dera eram tão providos de conhecimento financeiro quanto a sua própria ignorância sobre essas matérias. No fundo eram as acções que ele gostaria de tomar mas que, por um motivo ou por outro, sabia que não devia. O controlo sob os bens que possuía era sempre feito sob a perspectiva de Ângelo, o amigo, é o mesmo que dizer que Malarte olhava para as questões financeiras e via-as tal como gostaria que estivesse ou fossem. Acabou por perder todos os seus bens mas não só a matéria desapareceu. Desapareceu também a esperança, no mundo, em si, nos outros e na vida, sumiu-se depois que perdeu a sensação que havia algo para além da matéria que constitui os corpos vivos e não vivos. Se há um destino traçado para as pessoas, é muito discutível, mas Malarte acreditava nele. Sentia que um propósito se encontraria nos acontecimentos e que, as suas próprias atitudes também contribuíam para reivindicar esse futuro.&lt;br /&gt;Coincidência das coincidências: fazia tanto tempo que, não recebera notícias de Elsa e, logo na altura de maior desespero, ela enviou-lhe uma mensagem pelo correio electrónico.&lt;br /&gt;Antes de abrir chorou, riu, ficou com diarreia por três dias com os nervos e rezou a Deus para que as noticias fossem favoráveis. A carta começava por dizer que ela tinha encontrado o homem que lhe parecia ser o mais perfeito do mundo. Depois parou de ler a carta. Voltou a chorar, a suplicar e fez promessas. Afinal, no resto da carta ela ainda poderia dizer que era Malarte o amor da sua vida. Continuou a ler com a maior força de vontade que possuía para que o desejo se realizasse mas, a seguinte linha determinou-o a mal dizer de tudo. Só não partiu mais coisas na sua casa porque, pouco restava. Essa linha dizia que ela ia casar. Então fez pactos com o diabo prometendo o corpo, a alma e a sua total dedicação para praticar o mal enquanto estivesse vivo. Tudo para que na carta estivesse escrito que apesar das circunstâncias da vida, ela amava-o. Amava-o sim, mas ao outro e, não a Malarte. A carta terminava dizendo isso mesmo.&lt;br /&gt;Desde o momento que começara a perder o controlo da sua vida, na última festa que dera, tinham passado um ano e sete meses. Se já se encontrava num estado ruína. Agora iria sentir o que é não ter nada mais a perder. As penhoras e os demais cortes tomaram-lhe em primeiro lugar a casa e o carro. Depois o bens pessoais de valor, os móveis e as peças de arte que coleccionara. Só restou a roupa que servia para não morrer de frio e a dita “cofre do tempo” que o avô fizera para a sua mãe. Foi toda a herança que conseguiu preservar, um objecto que nem valor sentimental tinha pois, a percepção da realidade era como a de um demente. De resto, não tinha mesmo nada. Nem onde morar, nem dinheiro nem bens, nem amigos, nem um curso, nem futuro nem destino e mesmo os texto que conseguira guardar durante tantos anos desapareceram numa das suas comoções.&lt;br /&gt;Deu por si a morar em zonas que desconhecia na cidade de Marvelive. Em bairros feitos de lata onde, literalmente, quem tivesse tijolos para munir o seu abrigo era rico. Eram zonas que, por qualquer motivo, só eram vistas pelos pobres. Tinham a magia de ficarem invisíveis para aqueles que tinham dinheiro.&lt;br /&gt;A queda de Malarte na vida foi súbita, de rico a pobre, de concretizado a falhado. Para ele, o declínio total demorou mais a chegar do que, todos os anos que já vivera. Viveu cada dia numa agonia insuportável e as noites foram infindavelmente passadas sem conseguir dormir. As fantasias continuavam e tomavam cada vez maiores proporções e só lhe deixaram espaço para ele se consciencializar da dor indescritível por assistir ao lento desmoronamento da sua imagem, dos seus bens, das suas capacidades, das suas faculdades e da sua honra. E quando mais nada parecia haver para perder ainda conseguiu falhar duas tentativas de suicídio.&lt;br /&gt;Esforçava-se por morrer à fome encostado a qualquer canto mas, nem isso conseguia, sem se dar conta estava a comer restos que encontrava nos caixotes do lixo dos restaurantes ou a pedir restos de comida a quem já se encontava a pedir esmola na rua como ele. Nesses momentos, as lágrimas que secavam antes de lhes escorrer pelo rosto abaixo, pela vergonha, pelo flagelo que sentia ter sofrido, uma vontade insurgia desde o seu abdomen até à garganta seca, uma vontade de sentir que a amizade existia, que a bondade era o gesto das ofertas que lhe faziam, mas que as palavras proferidas em silêncio que lhe enchiam a alma queriam exprimir mais que caridade, partilhavam a dor de não existir para quelquer outra pessoa no mundo.&lt;br /&gt;Sentou-se à entrada do hotel onde outrora estivera a residir, para esperar uma mão caridosa que largasse a fortuna de um troco, mas foi expulso para uma viela num lapso de tempo que nem lhe permitiu reparar que voara por dois segundos antes de embater nos contentores do lixo. Reuniu as forças que não tinha, de uma coragem que não existia e voltou à porta do hotel determinado em falar com a gerência, na esperança que o reconhecessem e que lhe dessem uma mão. Antes que o segurança descarregasse as frustrações pessoais naquele ser que ninguém parecia conseguir ver, uma senhora segurou-lhe o braço e perguntou-lhe se estava bem. Malarte olhou para ela e reparou na senhora idosa que se preocupara com ele, na pele enrugada da mão que se lhe estendia e nos olhos ternurentos onde a beleza não cedera espaço apesar da evidência da idade. Malarte deixou cair o olhar pelo peso de uma sensação que lhe obrigou a deixar descair a cabeça também.&lt;br /&gt;A idosa bloqueaou as pretenções do segurança com um gesto.&lt;br /&gt;– Deixe estar minha senhora, eu vou atender este senhor. – Indicou o segurança com voz atenciosa. Mas ela entendeu os seus propósitos por isso agradeceu e voltou-se para Malarte.&lt;br /&gt;– Fale comigo, o que deseja o senhor?&lt;br /&gt;– Estou aqui por que quero falar com o gerente.&lt;br /&gt;Ela pediu para que Malarte a olhasse nos olhos.&lt;br /&gt;– Se posso saber, por que procura esse senhor?&lt;br /&gt;Ele mantinha o olhar caido no chão.&lt;br /&gt;– Preciso de falar com ele. Pode-me ajudar?&lt;br /&gt;– Ele não irá por certo falar consigo, sabe-o tão bem quanto eu. Olhe-me nos olhos, por favor. Que posso fazer eu por si? Que necessita você?&lt;br /&gt;– Repare em mim, o que acha que necessito? – Malarte subiu o olhar mas não manteve contacto visual directo nos olhos da senhora. A frase tinha sido expelida desmedidamente com alguma arrogância. Mas ela manteve inalteravel a sua geltileza e continuou a lhe provocar reacção.&lt;br /&gt;– Diga-me você o que pertende.&lt;br /&gt;– Quero trabalho, minha senhora. Necessito um meio de ganhar dinheiro. Preciso sair desta vida! – E confrontou-a com o olhar.&lt;br /&gt;Ela suspirou reflectindo angústia pela sua impotência. Abriu a sua carteira e retitou um pequeno molho de notas e depositou-lhas nas mãos de Malarte. Pediu desculpas por não o poder ajudar e pediu-lhe que aceitasse aquele dinheiro para que comesse algo, cuidasse do seu aspecto e procurasse trabalho num sítio mais fácil. Malarte cerrou ligeiramente a mão como segurando a sua esperança de recomeçar e saiu dali. A senhora ficou a vê-lo distanciar-se por uns segundos e depois voltou-se para a entrada do hotel onde o segurança lhe segurava a porta para ousar lhe dizer:&lt;br /&gt;– Não sei por que é que a senhora se preocupa. Tudo o que se lhes dá só lhes piora a situação. – Ela olhou para o segurança e silenciou-se.&lt;br /&gt;Ângelo Salvador, o amigo imaginário de Malarte, esperava-o no espaço que Malarte havia conseguido arrendar a troco de colher plásticos, metais e papelão. Malarte esforçava-se por fingir que não o via, mas a sua presença era a maior actividade do seu cerebro. Não havia nada mais em que Malarte se conseguisse concentrar senão na imagem que ele criava e nas palavras que seu pro seu próprio pensamento colocava na boca de Ângelo.&lt;br /&gt;– É uma estupidez dar ouvidos ao que o mundo te diz. – Criticou Ângelo. – Alguma vez alguem te ajudou? Ou de alguma forma contribuiu para o teu bem-estar?&lt;br /&gt;Malarte fingia-se ocupado a arrumar os poucos objectos que guardava, a maioria recolhidos no lixo. Entre os seus bens encontrava-se o cofre do tempo, o único bem que Malarte conseguira reter para ele por o tribunal não ter considerado que valia alguma coisa. Ângelo continuava o lento massacre.&lt;br /&gt;– Por que me fazes isto? Sempre que me viras as costas a tua vida transforma-se para pior!&lt;br /&gt;Malarte saturou-se e encarou o próprio pensamento em voz alta.&lt;br /&gt;– Tu fazes isto a mim! És fruto dos meus disturbios mentais e apenas existes quando a minha vida não tem sentido. Desaparece!&lt;br /&gt;Ângelo levantou a voz ao nível de Malarte:&lt;br /&gt;– O que de bom fizeste até agora na tua vida, os bons momentos que viveste, foi por te regeres segundo a forma de vida dos outros? Não Malarte! Não foi. Mesmo que eu seja fruto dos teus pensamentos, quem te estraga a vida são as pessoas que te ignoram.&lt;br /&gt;Por esta altura já Malarte rodopiava sobre si mesmo e embatia contra as paredes do quarto, falando consigo mesmo em voz demasiadamente alta para que as finas paredes impedissem que se ouvisse no exterior.&lt;br /&gt;No quarto ao lado habitava um coreano sexagenário com problemas de alcolismo. Era esse senhor que recebia o papelão e os metais e plástico de Malarte a troco de hospedagem. Despertou da ressaca com o som que vinha do quarto vizinho. Malarte continuava a discutir.&lt;br /&gt;– Tu vais desaparecer para sempre da minha vida, eu não necessito de ti!&lt;br /&gt;Ele sabia teoricamente o que deveria fazer para que Ângelo desaparecesse. Tal como lhe indicaram os psiquiatras que lhe diagnosticaram a doença, a solução partia por tentar mater o cerebro activo com qualquer ocupação. Malarte cerrou os olhos e pediu encarecidamente a Deus, apesar de nunca ter acreditado na existência de um Ser divino, ajuda para o esquecer. Abriu os olhos e Ângelo permanecia lá de pé junto a uma pilha de papéis que Malarte transformara em cama.&lt;br /&gt;– Não me acredito que agora procures acreditar em alguem que nunca viste e nunca veio em teu auxílio.&lt;br /&gt;Ângelo abanou a cabeça em reprovação e deixou-a cair com o olhar para o lado esquerdo fitanto o nada. Malarte suspirou com a respiração cambaleando de cansaço. Olhou no mesmo sentido que Ângelo. No chão estava o cofre do tempo. Deu dois passos para pegar nela como se fosse um menino de colo. Ângelo retomou a conversa recordando os traumas sofridos na infância quando Malarte ficava atrás da porta vendo a sua mãe embebedando-se e discutindo comum a moldura do marido que segurava na mão. Malarte era uma criança, com idade de um dígito apenas, mas apercebia-se do que se passava em seu redor com a maturidade de uma pessoa de dezoito anos. Um dia revelara-se à mãe, do esconderijo onde a observava, para lhe dizer que a amava. Ela olhou para ele, tentou dar um gole na garrafa vazia e deixou-a cair ao chão. Malarte abraçou-se a ela envolvendo a perna com a força que possuia e não conteve o choro. A mãe sacudiu-o e foi pegar numa caixa de comprimidios para angolir tantos quanto conseguiu antes de desmaiar redondamente no chão da cozinha. Malarte ficou a chorar sobre o corpo inerte da sua projenitora toda a noite.&lt;br /&gt;Malarte visualizava essas imagens enquanto percorria, com os dedos, as portinhas do cofre do tempo. Lembrou-se das palavras que a sua mãe lhe dissera quando lhe oferecera o presente: “Este é o cofre do tempo, há medida que os dias passam, descobrirás na abertura de cada porta um motivo para desejares o dia seguinte”. Lembrou-se a data que estava no cabeçalho dos jornais desse dia e abriu a portinha correspondente.&lt;br /&gt;Encontrou lá dentro um objecto que ele esquecera há muito tempo, a caneta de aparo que fôra do seu pai, a caneta com que ele próprio escrevera tantos textos. Sacou-a de dentro da caixa e retirou-lhe a tampa. Continuava tão bela como sempre, em metal prateado até á cabeça negra curvada e ponta promenorizadamente arredondada parecendo exigir que se escrevesse.&lt;br /&gt;Pegou num pedaço de jornal e riscou com a caneta mas a tinta havia secado. Meteu instantaneamente a mão ao bolso e pegou nas notas que a idosa lhe dera à porta do hotel. Malarte sabia exactamente que uso dar à caneta, iria escrever o seu futuro. No dia seguinte tinha um caderno novo, de páginas brancas, ásperas e pesadas. Duas duzias de envelopes e tinteiros que chegassem para reescrever a biblia duas vezes.&lt;br /&gt;O seu dom para a escrita ajuda-lo-ia a manter a mente ocupada para esquecer Ângelo, apagar as visões e dar-lhe-ia a possibilidade de enviar os textos para os jornais nacionais, na esperança que alguem pagasse por eles.&lt;br /&gt;Dias se passaram e Malarte permanecia enclausurado no seu quarto riscando folhas inteiras com textos. Mas nenhum o contentava, ele conhecia o mundo da imprensa escrita e sabia que a exigência dos jornais não aceitaria qualquer artigo. Nada do que escrevia terminava com a sensação de ser importante o suficiente para o publico, por que logo ao princípio não o era para Malarte. Desânimado com a falta de inspiração rendeu-se ao cansaço e pousou a caneta em cima da página em branco.&lt;br /&gt;Bateram à porta. Nunca antes acontecera. Malarte aproximou-se dela mas hesitou em abrir. A escassos centimetros, do outro lado da porta disseram:&lt;br /&gt;– Sou eu, o teu... senhorio.&lt;br /&gt;Malarte abriu e viu o sexagenário com aspecto de druida de cem anos à sua frente.&lt;br /&gt;– Não me tens entregue nada estes dias. – Disse o coreano referindo-se à forma de pagamento acordada pelo espaço que Malarte ocupava, naquela barraca podre, daquele bairro de lata, algures perdido em Marvelive.&lt;br /&gt;– Desculpe, tenho andado ocupado. – Recuou para pegar a última nota que sobrara da esmola dada, estendeu-a ao senhorio. Ele olhou para ela, surpreso por ver Malarte com dinheiro, retirou-a da mão dele e inquiriu:&lt;br /&gt;– Onde foste buscar este dinheiro? Não andas a roubas, pois não? Não quero esse género de actitude em pessoas que vivam cá “em casa”.&lt;br /&gt;– Não senhor! Deram-ma.&lt;br /&gt;O coreano admirou-se.&lt;br /&gt;– Deram-ta? Quem te daria dinheiro jovem?&lt;br /&gt;– Uma senhora frente ao hotel da Avenida da Paz.&lt;br /&gt;– Na Avenida da Paz? Isso é impossivél! Ninguém dá nada a ninguém por essas bandas! Olha rapaz, tu toma juizo, aqui podemos ser pobres mas ninguem rouba nada a ninguem, o que temos ganhamos a fazer o que sobra da sociedade, o mais ninguem quer fazer. Mas nunca tiramos nada indevidamente a ninguém!&lt;br /&gt;Malarte garantiu que não subtraira nada a ninguem e contou-lhe a história. O coreano ouviu-a admirado e convidou Malarte a ir beber chá com ele ao seu quarto.&lt;br /&gt;O espaço parecia uma suite real comparada com o quarto de Malarte. Tinha televisão, uma mesa, duas cadeiras, um móvel e até candeeiros de teto. As cortinas colocadas na janela davam um ar acolhedor à divisão e fizeram Malarte sentir que voltara a entrar num lar. O coreano abordou o tema mais sensivel para ele.&lt;br /&gt;– Tu pareces-me uma boa pessoa. Tens modos, maneiras. Não sei o que fazes por aqui.&lt;br /&gt;Malarte suspirou.&lt;br /&gt;– Nem eu!&lt;br /&gt;O coreano serviu com chá de tilia as duas chavenas na mesa despida de toalha.&lt;br /&gt;– Olha, eu ouvi-te a falar no outro dia. Eu entendo o que estás a viver.&lt;br /&gt;Malarte olhou para ele admirado pelo discurso.&lt;br /&gt;– Tu realmente não precisas dele. Destruir-te-à a vida senão fores capaz de o apagares para sempre do teu pensamento.&lt;br /&gt;Malarte estava boquiaberto com o conhecimento do coreano, espantado por as suas palavras serem tão exactas quanto a sua vontade.&lt;br /&gt;– Esse problema pode-te levar ainda mais baixo do que estás neste momento, ainda te resta a dignidade. O trabalho que fazes é honroso, porque não prejudica ninguem, pelo contrário. Mas se te deixares levar pela tentação poderás entrar num beco sem saida, sem mérito, sem nada de bom. Aqui onde estamos nenhum humano com uma vida normal repara em nós, ninguém vem nos deitar a mão, é mais simples ignorar, fingir que este enorme bairro de lata não coexiste com o mundo onde essas pessoas vivem. É bastante mais fácil para as pessoas que ainda tem uma esperança, um futuro, acreditarem que não temos salvação, ou se ela poderá haver que compete ao próximo, não somos da responsabilidade de cada membro da sociedade, pois nós não somos a sociedade deles.&lt;br /&gt;Malarte entendia perfeitamente o que ele queria dizer pois ele próprio vivera num mundo onde as mundanices como o materialismo e o consumismo ofuscavam a existência de tanta gente que não tinha o que comer ao jantar. Pessoas para as quais o pequeno-almoço era a comida que era ingerida à hora do almoço, o lanche não existia e o jantar tantas vezes era trocado pela tentativa de dormir para ignorar a dor da fome. Pessoas para as quais tudo o resto para além do basico à substência apenas chegava a ser sonho, até ao dia em que desaparecia entre a incomparavel realidade.&lt;br /&gt;– Eu sou a peça que ninguem deseja ter na cidade onde vive. Vivo numa casa que, por ser tão pobre, os ricos querem ver destruida. Sou uma imagem que as pessoas desejariam não ver na cidade, por que sabem que sou o reflexo de uma parte delas próprias, a sua sociedade. As esmolas que te dão são à vista de todos para que a suas imagens sejam encarecidas pelo reconhecimento social. A esmola que te dão sem querer o esconder serve os seus interesses não as tuas necessidades.&lt;br /&gt;– A senhora que me deu esse dinheiro não o fez para o mostrar a ninguem, ninguem estava lá para louvar o gesto.&lt;br /&gt;Levou a chávena à boca para molhar os lábios e exprimiu a sua opinião:&lt;br /&gt;– Parece-me ter a mesma gravidade. A esmola não te retirará deste lugar, é uma ajuda que não é concluida, é como ter uma fisga sem ter pedras para lançar. Eles fazem isso, mesmo sem saberem conscientemente, por que querem sentir que contribuiram de alguma forma, não querem ter a má lembrança de nada fazerem a segui-los no pensamento sempre que rezam, sempre que pedem a Deus algo que ainda não conseguiram, ou quando se satisfazem pela miníma ajuda dada ao próximo.&lt;br /&gt;Malarte rendeu-se às palavras cuja sabedoria só pode ser aprendida do modo que ningúem deseja, na pobreza.&lt;br /&gt;– Por isso esta parte da cidade ninguém a vê, senão do modo que sensura a existência...&lt;br /&gt;Houve um silêncio reflectivo e o sexagenário continuou:&lt;br /&gt;– Para a pessoa que passa de carro, ou a que vive emocionada com o poder que vai conquistando, ou a que possui o frigorifico cheio, ou mesmo a que compra os jornais que tu recolhes, para essa gente é como se eu não existisse.&lt;br /&gt;– Tu não existes! – Concordou Malarte ao recordar a sua maneira de ver este lado da vida quando ainda fazia parte dessa sociedade.&lt;br /&gt;O coreano voltou a levantar o olhar para Malarte e sublinhou.&lt;br /&gt;– Esta é a cidade invisivél.&lt;br /&gt;Ambos beberam ao mesmo tempo o chá já mais arrefecido.&lt;br /&gt;– Raios! Isto não sabe a nada! – Reclamou o coreano.&lt;br /&gt;– Falta-lhe açucar.&lt;br /&gt;– Falta-lhe alcool! – Ajustou. – É isto que te digo rapaz, enquanto podes esquece-o, escapa ao teu problema, o alcool só me levou à ruina e fará o mesmo contigo.&lt;br /&gt;Nesse momento Malarte compreendeu que o coreano não sabia da esquisofrenia dele mas que julgava que o problema se tratava de alcolismo.&lt;br /&gt;Ouviu com atenção as vicissitudes de um homem que já havia sido director de uma empresa média e que de um ano para o outro viu toda a sua vida arruinada, após a morte da pessoa que mais amava. A esposa falecera com um filho no ventre. Ele nunca conseguira reiniciar a sua vida e acabara por se entregar ao alcool.&lt;br /&gt;Acabaram por fica na conversa, a conhecerem-se melhor, até ao fim do dia. Malarte acabou por contar as suas aspirações em relação à escrita. Lembrou-se que não lhe restava dinheiro para comprar selos para enviar as cartas aos jornais. O coreano propôs-lhe um pequeno pagamento adicional caso Malarte conseguisse reunir o dobro do papelão que usualmente lhe entregava. Ele agradeceu e voltou para o seu quarto. Nesse momento sabia exactamente o que escrever.&lt;br /&gt;No cimo da folha que deixara em branco escreveu o título: “A cidade invisivel”. Foi uma só noite de desabafo para o papel onde tema sobre a problemática da integração se seguia ao tema do desenquadre social.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;IX&lt;br /&gt;Reencontro&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Poucos dias depois Malarte vasculhava o lixo numa viela, desanimado por não conseguir encontrar mais material reciclavel que o costume, mas ainda determinado em ganhar dinheiro para poder enviar os novos textos aos jornais. Nos primeiros dias percorreu as ruas de toda a cidade, de sol a sol, tentando encontrar os valiosos excedentes mas as ruas estavam imaculadamente limpas, na cidade do glamour lixo era algo que parecia nunca ser produzido. O pouco valor adicional que acumulou em dias havia-o gasto em comida para sustentar o extraordinário esforço fisico. E, em suma, aquilo tornava-se num ciclo vicioso onde a falta de meios só gerava mais pobreza.&lt;br /&gt;Num momento Ricardo, o seu velho colega de escola, saiu pela porta das traseiras do local onde trabalhava. Levava um saco na mão para colocar no depósito do lixo. Parou e olharam um para o outro. Malarte pediu-lhe o saco, Ricardo largou-o e retirou-se para dentro. Malarte ficou a lembrar alguns momentos antigos passados numa esplanada com ele mas não conseguiu chorar. Pegou no saco que Ricardo largar e espreitou o seu conteúdo. Subitammente Ricardo volta com duas caixas de piza na mão e entrega-lhe uma. Estava quente, temperatura que Malarte não experimentava há muito.&lt;br /&gt;Olhou para Ricardo e as lágrimas começaram-lhe a escorrer pela face sem cessar. Ricardo deu-lhe um abraço e suspirou.&lt;br /&gt;– Que te aconteceu Malarte…&lt;br /&gt;Foram juntos para um canto da rua e sentaram-se nuns degraus. Malarte não conseguia falar, não só por estar esfomeado mas, porque não tinha nada a dizer. Ricardo olhava-o impressionado e tentava que o momento fosse o menos estranho possível. Contou-lhe as novidades da sua vida, praticamente inalterável. Lembrou-se de desabafar alguns problemas que tinha, talvez para demonstrar que todos os têm. Mas reparou que Malarte já acabara a sua piza e estava especado a olhar para a dele.&lt;br /&gt;– Queres? – Perguntou-lhe como se não soubesse.&lt;br /&gt;– Sim. – Respondeu acenando a cabeça.&lt;br /&gt;Ia continuar o que interrompera mas um segundo reflectido a pensar naquela cena fê-lo perder toda a legitimidade de falar de problemas.&lt;br /&gt;– Sabes Malarte… Ultimamente tenho pensado muito em ti. Imagino que deves pensar que as pessoas te abandonaram…&lt;br /&gt;Malarte olhou para ele como quem pergunta se era mentira.&lt;br /&gt;– …bem. O que aconteceu é que… bem em primeiro lugar, a tua condição assustou as pessoas, sabes? Ninguém está preparado para lidar com isso.&lt;br /&gt;Malarte mantinha a cabeça baixa e começou a comer mais devagar. Ricardo continuou.&lt;br /&gt;– Ninguém julgou te estar a abandonar, simplesmente tu sempre foste muito autónomo… e as pessoas sentiram que se metessem o bugalho ainda te pioravam a situação.&lt;br /&gt;Malarte respondeu.&lt;br /&gt;– Piorar... como? Eu perdi tudo… e quando eu mais precisava de alguém, ninguém estava lá.&lt;br /&gt;Ricardo aceitou a verdade mas quis remediar os erros.&lt;br /&gt;– Eu estou aqui!&lt;br /&gt;– Tarde demais! – Disse com voz de desistência.&lt;br /&gt;– Nunca é tarde para começar de novo. – Afirmou Ricardo. Mas faltava-lhe nas palavras a convicção de quem já o fizera alguma vez. Ele não conhecia o ciclo vicioso da pobreza.&lt;br /&gt;– Ricardo eu reconho lixo, tenho que aceitar esta minha condição, nunca irei a lado nenhum.&lt;br /&gt;Malarte agradeceu a generosidade da comida e foi embora. Ricardo ficou a olhar para as caixas vazias que tinha na mão. Antes de Malarte desaparecer Ricardo redeu-se à sensação de lhe pertencer parte da culpa do estado em que Malarte se encontrava e gritou-lhe.&lt;br /&gt;– Espera! – Aproximou-se dele. – Tudo é possivel, se aceitares que eu te ajude. Posso?&lt;br /&gt;Ricardo estendeu-lhe as as caixas que segurava e Malarte recebeu-as. Poderiam valer o selo que se transformaria em passaporte para vida. Então compreendeu e levantou os olhos para olhar directamente nos de Ricardo. Sentiu que a humildade não passava somente por não ter nada a perder mas sim por assumir que queria voltar a ganhar e ao esquecer a sua actitude de crente de poder viver sem mais ningúem.&lt;br /&gt;Seis meses depois Malarte estava tão ocupado a transportar comida para as mesas e a tomar nota dos pedidos, que não tinha tempo para notar que a esquizofrenia quase desaparecera.&lt;br /&gt;A sua vida, lentamente, retomou um sentido. Se bem que totalmente mais modestos que no passado, agora cada milímetro sabiam-lhe como se acabasse de ganhar a lotaria.&lt;br /&gt;Trabalhou arduamente mas, ainda assim, houve momentos de pausa. Num desses, enquanto fumava um cigarro com Ricardo nas portas traseiras do trabalho, disse-lhe:&lt;br /&gt;– Nunca te cheguei a agradecer o que fizeste por mim!&lt;br /&gt;– Não agradeças! Trocamos de folga, quando eu precisar fazes isso por mim.&lt;br /&gt;– Não é isso… Estou a falar de me teres arranjado este trabalho.&lt;br /&gt;– Acredita, se não o merecesses não estavas aqui! És necessário.&lt;br /&gt;– Ainda assim…&lt;br /&gt;Ricardo aproveitou para desabafar algo que há muito tempo remoía dentro dele.&lt;br /&gt;– Malarte… não há nada em que me possas agradecer. Eu prejudiquei-te muito e deixei-te ficar mal… Eu gostaria de colocar essas culpas para trás e redimir-me mas desde que te conheci que te invejei muito… demasiado!&lt;br /&gt;Com a mesma honestidade Malarte respondeu.&lt;br /&gt;– Ainda assim, sou eu que te devo.&lt;br /&gt;Ricardo silenciou-se e aceitou o perdão com uma palmada no braço junto ao ombro.&lt;br /&gt;– Temos que ir para dentro agora, a nova gerente deve estar mesmo a chegar para ser apresentada ao pessoal. Não queremos dar uma má imagem já na primeira impressão, não?&lt;br /&gt;Malarte concordou. Enquanto atravessavam a despensa para ir para o local onde deveria se reunir toda a equipa, a cozinha, Ricardo opinou.&lt;br /&gt;– Sabes, eu conheço a gaja que vem para gerente. Das noites do “Apolo Club”, ela era a mulher do dono.&lt;br /&gt;– Nunca lá fui.&lt;br /&gt;– Também… ela só apareceu quando tu…. – E interrompeu por não saber o que dizer sem o ferir.&lt;br /&gt;– Quando eu desapareci! – Concluiu Malarte e deixou-o à vontade para continuar no seu ritmo quase eléctrico.&lt;br /&gt;– Pá! A mulher é tão boa! Vais-te passar!&lt;br /&gt;Entraram na cozinha onde já estavam todos reunidos em fila frente à nova gerente que lhes dizia para se deixarem de mordomias. Todos olharam para Malarte e para o Ricardo à medida que entravam na cozinha.&lt;br /&gt;– Ah! Aqui estão os que faltavam! – Referiu a gerente.&lt;br /&gt;Ricardo e Malarte não esperavam a recepção casual e bloquearam por instantes.&lt;br /&gt;Houve uns segundos de total silêncio. E Ricardo correu para a formatura. Olhou para trás e viu Malarte ainda congelado a olhar para a gerente.&lt;br /&gt;– Elsa Soares.&lt;br /&gt;– Ângelo, Malarte!&lt;br /&gt;Ficaram todos boquiabertos pela perplexidade dos dois.&lt;br /&gt;Se bem que a história deles havia sido mais íntima que com os outros, o tratamento de parte a parte foi tão normal como com qualquer outro profissional da casa.&lt;br /&gt;Elsa e Malarte saíam juntos nas folgas coincidentes. E certa noite numa caminhada junto à praia Malarte descreveu-lhe toda a sua vida dos últimos anos.&lt;br /&gt;– Tenho a sensação de já ter vivido isto antes. – Pensou em voz alta. – Agora eu conto-te a minha história...&lt;br /&gt;Contou as milhentas aventuras pelas quais passara e também os desastres que havia sofrido. Principalmente com o casamento. Acabara por, mais uma vez, sentir a dor da traição.&lt;br /&gt;– Apanhaste-o na cama com outro!? Também este?&lt;br /&gt;– Não, este não. – Suspirou Elsa com sarcasmo humorístico. – Apanhei-o com três amigas minhas, só isso!!!&lt;br /&gt;Depois ficou a pensar em algo que acabou por ouvir mesmo, pela boca de Malarte;&lt;br /&gt;– Mas será possivel que a vida seja tão injusta ao ponto de não conseguires encontrar alguem que estime dádiva com que Deus lhe brinda?&lt;br /&gt;Foi como um pressentimento. Algo que anos antes fingia não percepcionar para não se desacreditar quanto ao cepticismo. Antes gostava de ser céptica, era isso que a razão encobria. O coração falava-lhe de coisas que ela desconhecia mas talvez pelo que já tivera sofrido ela fingia não sentir, ainda assim pressentia que havia mais coisas para descobrir com o coração. Tantas ou mais do que as que tinha ganho por dar, preponderantemente, ouvidos à razão.&lt;br /&gt;Nesse momento com Malarte, junto ao mar, os anos tinham passado por ela. Ela sentia-se mais velha, mais adulta. Sentia que a vida passara por ela atravessando-a com as farpas que possui mas sobretudo sentia que fora a vida que também lhe dera muitos momentos de alegria. E, unicamente com todas essas vicissitudes capacitou-se de saber reconhecer o valor que tem quem a amava de verdade.&lt;br /&gt;Eles pararam e olharam-se nos olhos. Voltaram a ser crianças… não como quando passearam juntos ao lado do rio de Glowsea mas quando eram mesmo crianças e ainda não se conheciam. Voltaram a ser crianças no nervosismo de estar apaixonado, nas dores de estômago e nos sentimentos impolutos e determinados.&lt;br /&gt;Beijaram-se. E os seus lábios cerraram-se num universo que continha somente aquele momento, onde nada mais existia senão, o outro e o alívio que descarregavam por se abraçarem, por estarem ali – naquele momento a amar – e assumirem que há princípios que não são feitos para serem belos mas, o mais importante, era como a história terminava.&lt;br /&gt;Ao relaxarem lentamente iam-se apercebendo da realidade e mutuamente entendiam, sem palavras, que estavam no mundo real onde não existem momentos belos como os descritos nos livros românticos. Mas compreenderam, sem palavras, que a realidade pode ser mais bela do que a descrita no mais belo dos romances porque, e só porque, era sentida.&lt;br /&gt;Alguém chamou alto Malarte. Um arrepio correu-lhes o corpo em espontâneo memorial pela avó de Malarte.&lt;br /&gt;Era Ricardo e a sua namorada, Joana. Tudo estava bem, estavam contentes por se encontrarem todos fora do horário de trabalho. Acabaram por passar a noite juntos. Malarte nem tomou tempo para pensar que estava de novo sentado a desfrutar da companhia de pessoas a quem chamava amigos. Não pensou sobre isso porque apreciou todos os momentos como quem os quer viver por inteiro sem deixar de estar presente porque deixa a mente vaguear.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;X&lt;br /&gt;Dentro de si&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No seguinte dia de manha chegara ao trabalho depois da gerente. Se bem que ainda não estava atrasado alguém o informou que o esperavam na sala. Elsa apresentou-o a um homem vestido com um facto cinza-escuro, igual ao que outrora Malarte tivera.&lt;br /&gt;O senhor que lhe desejava falar, chamava-se César e, fazia parte do concelho de administração de uma editora literária. Havia-o procurado por imenso tempo mas durante dois anos não consegui tomar rasto de Malarte. Malarte não lhe revelou o porquê da razão mas sabia que os locais por onde andara eram invisíveis a essas pessoas. O assunto desbobinou-se depois de uma longa explicação em que César retirou da sua mala uma quantidade enorme de recortes de jornal e os mostrou. Eram os artigos que haviam sido publicados no jornal “Marvelive Post” agora ressuscitado pela empresa a que o senhor pertencia. Era a maior empresa de media em todo o país. Eram donos de canais de televisão, de rádio, de jornais, revistas, editoras livrarias e de outras empresas especialistas em procurar notícias. Em concelho dessa empresa decidira-se apostar na publicação de livros de novos autores. Acontece que, pela altura, César coleccionara a história completa que era publicada em excertos às sextas-feiras no “Marvelive Post”, apresentara-a ao concelho de leitura e a decisão foi unânime e imperativa. Desejavam encontrar o autor daqueles textos para publicar a obra.&lt;br /&gt;– Assim que recebemos os seus novos artigos “A cidade invisivél”, soubemos onde o procurar.&lt;br /&gt;– O livro que desejam editar, “Dentro de si”... Esse livro foi o primeiro que escrevi, ainda antes de vir para Marvelive.&lt;br /&gt;– Ah sim? isso é bom sinal. – Congratulou-se César. – Quer dizer que há aí muito sumo para aproveitar.&lt;br /&gt;Doze meses depois “dentro de si” era um best-seller a nível nacional. Não ultrapassara fronteiras mas fôra suficiente para Malarte sentir o conforto financeiro que tivera outrora.&lt;br /&gt;A cidade de Marvelive era demasiadamente pequena agora, para o furor que Malarte fazia. Onde quer que ele e Elsa fossem estavam constantemente a ser elogiados. Ele ficava orgulhoso de estar a acompanhar uma mulher como Elsa e ela ficava orgulhosa por acompanhar uma figura pública que, amava e com quem havia casado recentemente. Mas o entusiasmo das outras pessoas, o seu respeito e o seu reconhecimento de mérito não fascinavam Malarte. Ele sabia que parte se derivava ao próprio fascínio das pessoas pelas celebridades e noutros casos pela cegueira perante o brilho do dinheiro. Ele sabia que de um momento para o outro tudo podia mudar e portanto o mais importante a dar valor, era às coisas que existiam na carência de glória. Sabia que o mais valioso nas pessoas era a capacidade de verem para além dos notáveis, as pessoas cuja existência era ignorada por parecerem não terem triunfos a exibir.&lt;br /&gt;Malarte e Elsa estacionaram o carro num lugar vago de uma rua coberta pela folhagem verde das árvores. Enquanto Malarte colocava a moeda no parquímetro, Elsa contemplava as folhas de cabeça erguida para cima. Malarte aproveitou para contemplar mais uma vez, em silêncio, a sua beleza e ela perguntou-lhe:&lt;br /&gt;– Ângelo, não tens saudade do campo, da natureza?&lt;br /&gt;– Tenho, sim. – Confessou enquanto caminhavam para a loja de roupas onde no passado Malarte comprara os fatos. – Porque perguntas isso?&lt;br /&gt;– Diz-me tu primeiro, onde estamos a ir?&lt;br /&gt;– Deixe estar, eu seguro. – Disse Malarte ao empregado que correu para lhes abrir a porta. – Obrigado à mesma, Carlos. – E continuou a conversa com Elsa.&lt;br /&gt;– Não é onde vamos, é onde estamos. E, na minha opinião, estamos no local indicado para comprar o que quiseres…&lt;br /&gt;Ao sair da loja Elsa comentou.&lt;br /&gt;– Eu não precisava comprar tanta roupa. Não sei se deveríamos ter gasto tanto dinheiro.&lt;br /&gt;– Manter-te feliz é, para mim, um investimento seguro.&lt;br /&gt;– Ainda bem que falas em felicidade e em investimento.&lt;br /&gt;– Sim? Porquê?&lt;br /&gt;Elsa retira da bolsa a fotocópia de uma escritura e diz:&lt;br /&gt;– É que a gente vai morar para o campo como queríamos. Comprei a casa que foi dos teus pais!&lt;br /&gt;Malarte não queria acreditar. Aprendeu a conter a emoção pelas más experiências de vida, a não se exaltar em demasia, era a razão a comandar mas naquele momento abraçou Elsa e elevou-a no ar com gritos de contentamento.&lt;br /&gt;Felizmente, tudo correu como previsto e, em pouco tempo já habitavam em plenitude na casa, tal como ela fora antigamente. E a razão que continha Malarte e não o deixava exaltar-se a todo o momento, deixou-se equilibrar com a vontade do coração em exibir a felicidade quando Elsa lhe revelou estar grávida de dois meses.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;XI&lt;br /&gt;Jardim do Éden&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt; &lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Haviam sido montadas uma duzia de mesas de madeira e cobertas com toalhas de linho bordadas à mão com o ponto tipico de Glowsea. Sobrepostas no tecido braqueado industrialmente, havia uma panóplia de petiscos e doces caseiros. Toda a gente trouxera algo que julgava ser a sua especialidade culinária, a deversidade somente não causava surpresa para quem reparasse que o modo rural de vida naquela vila incluia saber exactamente o que cada um gostava de produzir e respeitar a unidade da opção de toda a gente. Nesse sentido a mesquenhice de conhecer tudo sobre o alheio resultava numa organização perfeita, em que não se perdia tempo para combinar tarefas. Os homens encarregaram-se dos trabalhos que requeriam mãos calejadas, habilidade na cofragem e, nalgumas situações, braços dispostos ao esforço. As mulheres haviam tratado da comida mas parece que o bicho carpiteiro nascera dentro delas para não lhes permitir sentarem-se e aguardar que tudo estivesse pronto, transportavam copos, pratos, talheres e guardanapos para a mesa e preparavam sumos de frutos colhidos nos seus quintais. As crianças eram mais que muitas e era por elas que o enorme espaço em frente à casa, que outrora fôra conhecida por Mansão do anacoreta, se transformava num lugar pequeno e repleto de vida. Corriam por todo o lado, saltavam à corda, cantavam, jogavam à cabra cega e às escondidas. Uma chorava por que a mãe lhe havia ralhado injustamente por causar estragos nos preparativos quando o culpado já se encontrava junto ao rio com alguns amigos a tentar apanhar rãs.&lt;br /&gt;Dois homens mais idosos começaram a tocar viola e violino e quando um mais novo juntou ao som o ânimo do seu acordeão, toda a gente disparou a bater palmas ritmando a música e o compasso dos pés que saltavam do chão e batiam de volta para levantar o pó.&lt;br /&gt;D.na Esmeralda, a única que se encontrava sentada, derivado a uma trombose que tivera dois anos antes, batia as mãos e berrava a melodia da letra demostrando uma força que raramente exibia nesses correntes dias.&lt;br /&gt;De repente um pujante estrondo rompeu o ar. O susto geral foi denunciado pelo virar dos rostos em relação à origem. O fogo de artifício explodia cobrindo o céu como se fosse um gigante guarda-sol. A festa dissolvia tudo o resto, de modo que a noite pareceu entrar tão discreta quanto a corrente de àgua que encaminhava o corso do rio no seu trajeto natural.&lt;br /&gt;Elsa e Malarte rodopiavam no meio do nevoeiro de terra, na improvisada pista de dança, entre rostos que só conheciam por aqueles momentos de alegria. O sorriso era uma feição comum em cada habitante da vila e o à-vontade entre todos era a familiaridade de bons anfitriões. Elsa nunca se vira tão impar com o seu modo de vida, o estilo que a caracterizava por o ter adquirido há longos anos. Estranhamente sentia-se integrada, mais que alguma vez conseguira com esforço o fazer. Se naquele momento tivesse qualquer importância a questão, ela repararia como parecia nunca ter saido da casa dos vinte anos e ter mantido o prazer de viver num contentamento adolescente.&lt;br /&gt;Cambalearam para fora do epicentro da dança assim que a música acabava, aplaudindo entre risadas como todo o povo fazia. Elsa olhou Malarte reflectir nos olhos um brilho que nunca havia nele visto anteriormente e a risada de ambos foi abafada num abraço de felicidade mutua. D.na Esmeralda reparou no aperto dos dois e compartilhou daquele contentamento que dava para distribuir ao mundo inteiro. O seu bisneto puxou-lhe de um braço para lhe chamar a atenção para a rã que ele e os amigos haviam capturado. Disse-lhes a brincar, para lhes provocar a aflição:&lt;br /&gt;- Dái-ma cá que eu como-lhe as perninhas.&lt;br /&gt;- Não! –E riam entre os gritos que demonstravam pavor.&lt;br /&gt;Malarte olhava o panorama em seu redor, na prespectiva cinematográfica dos seus pensamentos. O sol que quase se intoduzira na linha do horizonte, deixava ver claramente que aquela era a melhor festa em que já estivera em toda a sua vida, por haver algo tão simples que não podia ser explicado, mas somente sentido, algo que ele nunca podera comprar para introduzir nas festas que fizera quando andava na universidade. Esse algo parecera-lhe antes tão banal e agora tão raro quanto trivial. A felicidade. Tinha tudo, tudo o que realmente necessitava sem omissão ou exageros. A medida exacta do que sempre quis sem o chegar a desejar. A mulher que sempre tivera a certeza de amar, um filho que ela gerava no seu ventre, amizade, paz e a casa que recuperara, a casa onde nascera e crescera a maior parte da sua vida. Tudo aquilo era o seu tesouro, o motivo que o fazia sentir concretizado, mesmo faltando tanto para viver e ganhar ainda, o motivo que o fazia se sentir esperançoso quanto ao futuro.&lt;br /&gt;O som da música foi mais forte que a contenção que o dominava de modo inconsciente e ele abriu a sua alma para que o brilho do sol reflectido nas àguas doces do rio lhe envadisse a mente e o fizesse perceber o significado que o nome daquele lugar tinha. Glowsea, mar dourado, resplandescente como a cor com que o pôr de sol pintava tudo aquilo que era, de facto, o seu real tesouro. Aquele lugar e a sua família.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;CONTINUA…&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000000;"&gt;dedicado ao amigo Eugénio&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/28052690-115323456940310445?l=tunaoexistes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/feeds/115323456940310445/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=28052690&amp;postID=115323456940310445' title='40 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28052690/posts/default/115323456940310445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/28052690/posts/default/115323456940310445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tunaoexistes.blogspot.com/2006/05/tu-no-existes_01.html' title='Tu não existes!'/><author><name>nuno marujo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02934681415275827371</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>40</thr:total></entry></feed>
